Trajetória Política

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A figura de Miguel Arraes tem sido com freqüência associada nos meios de comunicação ao que se convencionou chamar de “político de esquerda”, “homem identificado com as lutas populares” ou ainda outras designações penosamente insuficientes para conter [e expressar] a personalidade, a obra e o pensamento do homem público que Miguel Arraes foi em grau superlativo.

Sua atuação à frente da prefeitura do Recife para a qual foi eleito em 1959; seu primeiro mandato de governador em 63-64, dramaticamente interrompido pela intervenção militar; o segundo em 1986-1990 e o terceiro em 1994-98 deram-se em momentos e ambientes políticos e econômicos diferentes; cada um com suas próprias dificuldades e desafios. Mas as quatro gestões foram orientadas pela mesma visão humanista de que o verdadeiro desenvolvimento só pode ser alcançado e sustentar-se com a conscientização das maiorias sem voz e sua inclusão no conjunto da vida social organizada, de sorte que possam ascender à condição de consumidoras e criadoras de riqueza.

Implícita nesta postura está a clara noção de que não se trata de encetar ações isoladas, que na verdade devem dar-se em um contexto de desenvolvimento integrado e equilibrado dos diversos setores produtivos e das várias regiões.

Assim, importantes construções políticas como foi o Acordo do Campo; investimentos cruciais em infra-estrutura como a eletrificação rural, ou medidas quase de sobrevivência como o financiamento de vacas de leite ou a contratação na entressafra de trabalhadores rurais para obras públicas, todas estas iniciativas eram a rigor penhores de um compromisso muito maior, exigente de “reformas de base” de uma Revolução Brasileira que no espírito dos primeiros anos 60 se acreditava em gestação.

Classes dominantes insatisfeitas procuraram não raro desfigurar estas ações em paternalismo, assistencialismo ou clientelismo, obscurecendo com evidente má fé toda a amplitude e dinamismo do conjunto de iniciativas que marcaram as diversas administrações de Miguel Arraes. Entre tantas surgem com particular destaque: o movimento cultural, a ênfase na alfabetização de crianças e adultos e a valorização da ciência e tecnologia como instrumento de desenvolvimento regional e local, de que é eloqüente exemplo, em seu primeiro governo, a criação do Laboratório Farmacêutico de Pernambuco, o Lafepe, para fabricar medicamentos desenvolvidos pela Universidade Federal (UFPE) e destinados principalmente à população mais pobre. (Registre-se que o Lafepe ocupa hoje posição de destaque entre todas as indústrias farmacêuticas do país, fabricando grande variedade de produtos, que vende em rede própria de farmácias a um custo em média cinco vezes inferior ao da rede comum e ainda tem lucro para reinvestir!..)

Não se esqueça, por outro lado, que é de seu segundo governo a criação da primeira Secretaria de Ciência e Tecnologia do Nordeste, extinta logo no início do governo que o sucedeu, e recriada a seu regresso em 1994. Criou também a Facepe, Fundação de Amparo à Ciência do Estado de Pernambuco, igualmente a primeira do gênero na região, que muito tem contribuído para o desenvolvimento científico de Pernambuco, estado que já conta com tantos pesquisadores quanto têm Bahia e Ceará juntos. Numerosas iniciativas neste terreno dizem da visão progressista e da crença de Arraes em que Pernambuco poderia vir a liderar muitas das novas especialidades do século XXI, como a informática e a biotecnologia; a medicina especializada e os serviços de consultoria de alto onível.

Em seu terceiro governo, implantou a Rede Pernambuco de Informática, possibilitando aos municípios do interior acesso direto à Internet; ampliou as incubadoras de empresas, criou o Parque Tecnológico de Eletro-Eletrônica (Parqtel); a Biofábrica de Cana de Açúcar de Itapirema (a maior do país); desenvolvou e implantou um dos melhores sistemas de informações e gerenciamento de recursos hídricos do país e criou o Programa Estadual de Difusão Tecnológica – Peditec, para capacitar trabalhadores e dar suporte às microempresas em todas as regiões do Estado.

Tantas iniciativas compondo um programa de desenvolvimento integrado, conduzidas quando a ofensiva ideológica do pensamento único já tomara de assalto o governo federal; municiara a direita e contaminara amplos setores da chamada esquerda, são profundamente reveladoras da coragem, dignidade, consistência ideológica e sentido nacional com que Pernambuco se transformava em um dos pilares da resistência ao desmonte e à crescente vulnerabilidade do Brasil.

A liderança fortemente carismática que tanto conduzia equipes como multidões; o firme sentido de missão; a franqueza e a força de sua natural simplicidade, despertavam nas massas secularmente acostumadas a nem sequer terem reconhecida sua existência, fervor quase religioso e devoção filial, que a expressão “Pai Arraia” registra para sempre com pungente candura. Este sentimento não é o que ações clientelistas podem despertar. Na relação de Arraes com o povo, em particular o do interior e o da periferia metropolitana, pressentia este, embora talvez nem sempre disto tivesse clara consciência, seu encontro histórico com a dignidade humana, que passava a ser também atributo seu.

Nunca será demais repetir que em Arraes a visão do homem é, na melhor tradição humanista, a de um ser com prerrogativas inalienáveis, programado para transcender-se e viver socialmente na perspectiva do bem comum. Percepção totalmente contrária ao reducionismo da crescente mercantilização de tudo, que do homem faz pouco mais que o famoso cachorrinho de Pavlov, ou seja, um animal que procuraria apenas maximizar o prazer e minimizar a dor… Igualmente, sua noção de desenvolvimento, confirmada à saciedade pela experiência histórica, estava impregnada do sentido dinâmico de transformação, que a obsessão pelo mercado e o lucro imediato pretende reduzir a simples devaneio.

O exílio foi certamente para Miguel Arraes um posto privilegiado de observação sobre o Mundo e de reflexão sobre o Brasil. Seu vigoroso pensamento, lúcido e amadurecido, foi nesse período e após a volta ao Brasil registrado em textos recentemente publicados pela Fundação João Mangabeira, acessíveis a partir deste sítio eletrônico.

Nossa formação histórica; a história recente; o período 64-85; o chamado processo de redemocratização; a dinâmica do contexto internacional em que se foi gestando a ofensiva do endividamento e da financeirização, todos estes grandes temas são analisados com penetrante lucidez, honestidade intelectual e elegante simplicidade de estilo; sem qualquer concessão aos axiomas da moda ou à enfadonha repetição de mantras “politicamente corretos”.

Que este legado de Arraes possa contribuir para despertar consciências entre as classes políticas; entre acadêmicos e pesquisadores e na sociedade em geral.

 

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