Miguel Arraes, cem anos depois

Detalhe da foto de capa do livro "Arraes", de Tereza Rozowykwiat

“História é memória, importante para se compreender o passado. É identidade e pertencimento ao espaço. Então, é importante para compreender a trajetória e o percurso que nos levou a sermos e estarmos vivendo estes momentos no Brasil”, afirma a historiadora Elizabet Remigio sobre a importância de se produzir registros para que acontecimentos do presente sejam melhor compreendidos. “O historiador analisa o passado a partir de questões que são colocadas para ele no presente”, reitera.

Há 100 anos, num dia 15 de dezembro, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes nascia em Araripe (CE). Em referência à data, o Museu do Estado de Pernambuco recebe nesta quinta (15/12)a exposição Duas mãos e o sentimento do mundo, que inclui parte do acervo do Instituto Miguel Arraes (IMA) e do Arquivo Público com documentos, fotografias e objetos pessoais do líder político. Na ocasião, também haverá o lançamento de quatro obras com abordagens e recortes temporais sobre a vida e carreira de Arraes, todas publicadas pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). “Arraes é um dos políticos do século XX mais influentes. Ele conseguiu trazer uma discussão importante para as camadas populares. Pensar Arraes é pensar a história de Pernambuco e do Brasil. Mais do que o centenário, é importante conhecer a nossa história”, afirma Elizabet Remigio.

Um dos lançamentos é a segunda edição da biografia autorizada de Miguel Arraes, escrita pela jornalista Tereza Rozowykwiat, que acompanhou durante 12 anos a vida pública dele enquanto era repórter do Diário de Pernambuco. A obra, de 400 páginas, conta, nesta edição, com mais de 30 fotos e prefácio do professor da Escola de Economia de São Paulo Luiz Felipe de Alencastro, além de dois novos capítulos que revelam acontecimentos sobre o período de exílio do político na Argélia. No prefácio, denominado As três vidas de Miguel Arraes, Luiz Felipe Alencastro ressalta sobre os anos de exílio que “além dos fatos que ela [Tereza] assinala, outras atividades de Arraes no exterior com importantes repercussões em diversos países merecem ser lembradas ao leitor brasileiro”, destacando, por exemplo, o engajamento dele na formulação de programas de alfabetização baseados no método Paulo Freire em Guiné-Bissau e Moçambique.

“Quando eu fiz a primeira edição, eu tinha poucas informações sobre o exílio, era a parte mais difícil de reconstituir já que o período estava em um arquivo que ele tinha, mas a gente não tinha acesso. Nessa segunda edição, agora com o IMA (Instituto Miguel Arraes) que tem todosesses documentos, eu ampliei principalmente esta parte. Aproveitei também e conversei com outras pessoas”, conta Tereza Rozowykwiat em entrevista à Continente

livro

Outro lançamento é As brigadas muralistas e as campanhas de Arraes – Arte e política na década de 1980, este resultado de vasta investigação realizada por Elizabet Remigio. A autora aborda o movimento estético-político da Brigada Portinari, que utilizava os muros do estado como suportes de expressões artísticas engajadas durante as eleições da década de 1980 relacionando-o à figura de Miguel Arraes. “O início do livro parte de 1979, que é a discussão da anistia. As brigadas surgem nesse momento de transição para o regime democrático, do retorno dos exilados”, pontua Elizabet.

Segundo a autora, sua pesquisa de mestrado teve adaptação para que a linguagem acadêmica desse lugar a uma estrutura menos cientificista no livro, e “também para quem não vive o mundo acadêmico, mesmo que o rigor científico das fontes e informações tenha se mantido”. Em trecho da orelha, assinada pelo gestor do Arquivo Público de Pernambuco Evaldo Costa, a relevância da publicação e do movimento para o registro histórico de Pernambuco é pontuada: “O estudo que este volume leva a público, ricamente ilustrado com dezenas de fotografias de obras de arte, que não existem mais desde os anos 1980, é o mais completo documento sobre a Brigada Portinari e as históricas campanhas de transição democrática brasileira, particularmente sobre a campanha que levou Miguel Arraes de volta ao Palácio das Princesas, de onde fora arrancado pelas forças armadas”.

Os outros dois lançamentos da ocasião são Pernambuco em chamas – A intervenção dos EUA e o golpe de 1964, do repórter especial do Diario de Pernambuco Vandeck Santiago, e Porto do renascimento – A última campanha de Arraes, do pernambucano Marcos Cirano. “Um livro de História que se lê como uma grande reportagem e uma grande reportagem que se lê como um livro de História”, anuncia Santiago sobre sua mais recente publicação, que traz como tema as interferências norte-americanas no Nordeste brasileiro durante os anos 1960, devido ao receio anticomunista do governo de Kennedy. O crescimento das Ligas Camponesas na região e a eleição de Arraes também são levantados. O último traz uma narrativa sobre o período de campanha de reeleição de Miguel Arraes para governador no ano de 1998.

Os lançamentos e a abertura de Duas mãos e o sentimento do mundo serão às 19h desta quinta (15/12) no Museu do Estado (Av. Rui Barbosa, 960, Graças, Recife).

Para adquirir os livros: https://www.cepe.com.br/lojacepe/

Fonte: Revista Continente

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