O artista quando jovem

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Eduardo Henrique Accioly Campos, brasileiro, 49 anos, pele clara, andar firme, resoluto. Sua principal característica era a intensidade. Não economizava gestos. Sempre inteiro em tudo que fazia. Como um homem de ação adorava o movimento. Planejava meticulosamente a sua estratégia de conquista, mas não punha luto pelas derrotas. Dava gosto vê-lo enumerar as providências – de próprio punho -, descrever as tarefas, a letra vincando a folha que alisava com esmero. Como líder político era altivo, corajoso, decidido, ousado, envolvente, bem-humorado. Não dava “intimidade a problemas”. Era infatigável no trabalho. Organizado, disciplinado, pontual, atento aos detalhes onde o diabo faz morada. Abominava o gerúndio, pois celeiro de incompletudes. Às primeiras tintas da manhã, já se debatia entre dezenas de ligações para secretários, gestores, deputados, prefeitos, ministros, líderes de Pernambuco e do Brasil. Usava camisas brancas, engomadas e gravatas que foram migrando do vermelho para tons de azul, sabedor de que os compromissos com o povo não se medem pela cor da gravata. Era objetivo nos telefonemas, expedito no comando, cioso de que o tempo era o seu principal adversário e o seu mais retributivo aliado. O foco nos resultados o fez cultuar os números que mediam o avanço do governo e, com base nestes e no seu faro apurado, tomava decisões com a velocidade de um raio. “É importante ter atitude!”, dizia. Era eletrizante o ritmo da sua ação. Não deixava tarefas para o dia seguinte. Em madrugadas avançadas, ia assinando papeis, rosto lavado, com o gosto sóbrio pela governança, cônscio de que a história deslizava entre os seus dedos. Para o ritmo indolente da administração pública no Brasil o seu governo promoveu uma revolução, que transformou Pernambuco e o projetou como líder nacional. Enfrentou corporativismos atávicos e deu lições a todos, em especial aos jovens gestores. Era exigente, mas também empático, aproximativo, pródigo em histórias picarescas, que povoam a memória política do Estado. Com seu carisma e inteligência encantava os de rosto curtido do sol do sertão, bem como o mundo oficial, burocrático e tributável. Na relação com a família era um esteta do cotidiano. Comoventes o companheirismo entre ele e Renata e a sua insuperável presença na vida dos filhos. Era generoso e solidário com os amigos, de todas as classes sociais. Não se conhece um companheiro ferido deixado pelo caminho. Gostava de reuni-los em casa e não dispensava um macarrão na manteiga e um bode bem assado. Preferia uísque, mas tomava cerveja com gelo. O seu olhar de periscópio verde parecia tudo varrer, não raro abrindo um largo sorriso que iluminava o ambiente. Tinha a noção da responsabilidade que era governar Pernambuco. Seu mestre: Miguel Arraes! A coragem era uma marca indiscutível do seu temperamento, mas era apenas parte da intensidade. A coragem, a capacidade de decisão, o brilho, a sensibilidade emotiva, a vocação para a política, o amor pelos mais pobres, tudo derivava da intensidade. Não se comprazia com o fogo brando. Recusava a neutralidade sem tempero. Encarnava o futuro, com o seu otimismo contagiante, a sua fé de que ia dar tudo certo. Um futuro que nos roubaram. Era um Estadista pronto para cumprir o seu destino. Tudo derivava da intensidade. O gosto do dia, o gosto da noite, o gosto da vida. Parecia mesmo adivinhar que o dia seria curto e que era preciso aproveitá-lo bem.

Fonte: Jornal do Commercio

Por Tadeu Alencar é procurador e deputado federal eleito (PSB-PE) - tadeualencar2014@gmail.com

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