Arraes, uma vida

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  O sábado amanheceu ensolarado. No céu, poucas nuvens. As rajadas de vento eram fortes. No sexto andar do Hospital Esperança, no bairro da Ilha do Leite, no Recife, às margens do estuário do rio Capibaribe, um cearense de 88 anos dava sinais de cansaço na luta que vinha travando há 57 dias contra a morte. Às 11h40 da manhã, a notícia se espalhou por todo o país: tinha acabado de bater pela última vez o coração de Miguel Arraes de Alencar. Um homem que dedicou a vida à causa pública sem dela auferir qualquer vantagem.

  Aos dezessete anos, Miguel Arraes deixou o Crato, no Ceará, rumo ao Rio de Janeiro, onde foi aprovado no vestibular de direito. Na mesma época, passou num concurso para o extinto IAA, o Instituto do Açúcar e do Álcool. Como era menor de 18 anos, só assumiu depois de fazer um acordo com a Justiça. Por decisão pessoal, transferiu-se para o Recife, onde terminou o curso na Faculdade de Direito da UFPE.

   Na década de quarenta, entrou para a vida pública ao assumir a secretaria da Fazenda, no governo de Barbosa Lima Sobrinho. Cargo que ocupou pela segunda vez na gestão de Cid Sampaio. Nos anos cinqüenta, deu os primeiros flertes com as urnas. Ficou na suplência, mas assumiu uma cadeira, por duas vezes, na Assembléia Legislativa de Pernambuco.

   Em 1959, Arraes foi surpreendido por um convite, ou melhor, uma intimação, das lideranças de esquerda de Pernambuco. Deveria ser o candidato a prefeito. “Mas, como, se meus votos são tão pouquinhos?” – ponderou Arraes, com aquele seu jeitão sábio de enxergar a vida. Mas o martelo e a foice já estavam batidos: Miguel Arraes era o candidato a prefeito das forças progressistas da capital.

  Eleito prefeito, Arraes fez uma administração que logo ganhou destaque junto à população e lhe forneceu o passaporte para outros vôos, que ele nem sequer imaginava que estivessem em curso. A preocupação com a população urbana e formas de melhorar o acesso das comunidades pobres à cultura e à educação estavam em cima do birô do novo prefeito do Recife. Fez o traçado urbano do bairro da Imbiribeira, construiu a ponte de Limoeiro, as avenidas Sul, Abdias de Carvalho e Conselheiro Aguiar. Concluiu a Avenida Norte e pavimentou com concreto a Avenida Boa Viagem. Obras que até hoje servem à população do Recife. Quando incentivou e apoiou a criação do Movimento de Cultura Popular, o MCP, Arraes mostrou que queria governar para todos. Em apenas dois anos, vinte mil crianças pobres do Recife, que viviam marginalizadas e sem acesso à educação, foram alfabetizadas. Germano Coelho, que mais tarde viria a ser deputado e prefeito de Olinda, foi fundador e primeiro presidente do MCP. O Movimento funcionava no Sítio da Trindade, em Casa Amarela. Jovens e adolescentes pobres tiveram os primeiros contatos com o teatro, a pintura, a poesia. E foi no MCP que o hoje famoso ator José Wilker, que viveu a infância e a adolescência em Olinda, teve os primeiros contatos com a arte. A coordenação do Movimento era do escultor Abelardo da Hora.

  O antigo prédio da Prefeitura do Recife ficava na Rua da Aurora, onde hoje funciona o Mamam, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães. A separá-lo do Palácio do Campo das Princesas, apenas o Rio Capibaribe. E Arraes foi convocado para atravessá-lo. Ficou receoso novamente, mas nada pôde fazer. Abertas as urnas, estava eleito para o que viria a ser o seu primeiro mandato à frente do Palácio do Campo das Princesas.

   Como governador, ampliou o programa de alfabetização de jovens e adultos pobres, estimulou a luta dos trabalhadores rurais da Zona da Mata por direitos trabalhistas, intermediando a negociação entre camponeses e usineiros, que ficou conhecido como o “Acordo do Campo”. Por esse pacto, os direitos trabalhistas dos camponeses passaram a ser respeitados, os salários da categoria foram regulamentados e ficaram acima do mínimo. Foi aí que Arraes ganhou a confiança e a gratidão eterna dos canavieiros. E nunca mais deixou de ser chamado de “Pai Arraia”. Um sincretismo político que ele entendia muito bem quando assim era chamado. Outra obra importante do seu primeiro governo foi a criação de uma farmácia para vender remédios mais baratos à população pobre, o que mais tarde viria incentivá-lo a criar o Lafepe, Laboratório Farmacêutico de Pernambuco, até hoje em funcionamento. A idéia de vender remédios mais baratos foi tão bem engendrada que, quarenta anos depois, serviu de modelo para o governo do presidente Lula adotar no Ministério da Saúde, tendo como carro-chefe as “farmácias populares”.

  Mas no segundo ano de governo, veio o grande pesadelo de Arraes. Os militares deram um golpe de estado e tiraram o presidente João Goulart do poder. Em Pernambuco, tentaram contemporizar com o governador. Ele renunciaria ao mandato e em troca ganharia a liberdade. Proposta indecorosa para um homem do quilate de Arraes. Na madrugada do dia primeiro de abril de 1964 foi preso. Do Recife, foi levado para a Ilha de Fernando de Noronha. De lá, Arraes seguiu para o Rio de Janeiro. Pouco tempo depois partiu para um longo exílio de 14 anos em Argel, capital da Argélia, na África. Ao voltar, em1979, Arraes reconstruiu sua vida política. Foi eleito deputado federal em 82. Dedicou parte do mandato à luta pelas eleições diretas de presidente da República. Em 1986, voltou ao Palácio do Campo das Princesas para governar Pernambuco pela segunda vez. No retorno ao governo de Pernambuco, eletrificação de pequenas propriedades rurais, irrigação, crédito agrícola e o Chapéu de Palha, programa criado para dar emprego aos trabalhadores rurais da Zona da Mata durante a entressafra da cana-de-açúcar.

   Após deixar o segundo governo, em 1990, Arraes foi eleito deputado federal com a maior votação do Brasil. Em 94, assumiu pela terceira vez o governo de Pernambuco. Sendo o único a ser três vezes eleito governador de Pernambuco. Quando encerrou seu terceiro e último mandato, Arraes tinha contabilizado dois mil, novecentos e cinqüenta e cinco dias à frente dos destinos da população pernambucana. Neste 15 de dezembro, Arraes iria completar 90 anos. Naquele sábado, 13 de agosto de 2005, ao suspirar pela última vez no leito de um hospital, Miguel Arraes de Alencar deixou na mente e nos corações de quem com ele conviveu a imagem transmitida em um de seus poemas preferidos, do pernambucano Joaquim Cardozo:

“Sou um homem marcado/

 mas esta marca temerária/

 entre as cinzas das estrelas/

há de um dia se apagar

Por Ítalo Rocha

Publicado no Diario de Pernambuco em 15 de Dezembro de 2015

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