As lições das eleições

Passadas a eleição estadual e o primeiro turno da presidencial é possível fazer diversas análises dos resultados, sejam quantitativas, com foco nos números, ou qualitativas, de viés interpretativo. Aqui, adota-se o segundo caminho com um breve balanço dos resultados e suas consequências. Para tanto, parte-se das acachapantes vitórias de Paulo Câmara e Fernando Bezerra (PSB) nas disputas majoritárias e das coligações lideradas pelo PSB nas proporcionais, todas impulsionadas pelo legado do ex-governador Eduardo Campos e a comoção após sua trágica morte.
O prematuro desaparecimento de Campos e a vitória de um neófito em disputas eleitorais para o governo estadual repercutirão fortemente na nova configuração da política local. E nacional. Isso ocorre na medida em que a própria ascensão de Campos, da forma como se deu, o transformou não apenas no maior líder político local mas praticamente no único. É importante destacar que, diferente de outras lideranças, Campos, um político formado na militância partidária e nas urnas, galgou tal posição ao derrotar em sequência todos os atores políticos estaduais relevantes, fossem indivíduos ou partidos.
De fato, em 2006, momento de inflexão de sua carreira, Campos venceu a aliança PMDB-PFL/DEM e então o seu principal “projeto” de líder, Mendonça Filho. Em 2010, derrotou o próprio PMDB e sua única liderança, Jarbas Vasconcelos. Finalmente, em 2012, isolou e impôs uma derrota ao PT e aos seus principais líderes, Humberto Costa e João Paulo, além de anular os voos solos de antigos adversários, todos já derrotados. Agora, o peso de seu legado e de sua morte derrubaram Armando Monteiro (PTB) e João Paulo – este, pela segunda vez, paga o preço pela luta fratricida travada com João da Costa e aliados. Ao mesmo tempo impôs novos “projetos” de liderança, como Geraldo Julio e Câmara, com perfis mais técnicos, já que Campos sozinho cumpria o papel de líder político do PSB e do Estado. Com sua morte, completou-se a “desarrumação” do quadro político local iniciada em 2006.
Hoje, portanto, Pernambuco padece de líderes políticos “naturais”, com sólida história construída na militância partidária e nas urnas. Com Jarbas (o último remanescente de uma geração que não teve substitutos à altura) já sem protagonismo abre-se espaço para que os neófitos confirmem ou não as fichas que Campos apostou neles. Mas sem sua ajuda. Ao PT resta reinventar-se no Estado, o que depende diretamente de uma vitória de Dilma Rousseff no segundo turno, enquanto o DEM, mais que o PSDB, que ainda disputará o segundo turno nacional, não parece demonstrar fôlego para emergir das ondas pessebistas.
No plano nacional, ao decidir apoiar o PSDB de Aécio Neves no segundo turno, o PSB parece ter abandonado não só a ideia de se constituir em alternativa nacional de poder como sua história de quase 70 anos e o legado de seu mais importante líder, Miguel Arraes. Com efeito, criado em 1947, e proscrito durante a ditadura militar (1964-85), o PSB nasceu da chamada “esquerda democrática” dos anos 1940. Com Arraes à frente, na redemocratização dos anos 1980, sempre atuou ao lado de legendas de esquerda ou centro-esquerda. E, assim, jamais esteve sequer próximo ao projeto nacional do PSDB. Em 2004, por exemplo, em depoimento publicado no livro 1964, O Golpe Passado a Limpo (Editora Massangana), Arraes criticou duramente FHC e o PSDB creditando a eles o que “nem os militares ousaram fazer: dilapidar o patrimônio público”. Para Arraes, ao entabular a “pior entrega que já se fez neste país, e com um sorriso no rosto”, FHC teria complementado o projeto dos agentes econômicos que estiveram na origem da ditadura e só a abandonaram quando seus interesses mais imediatos foram contrariados. Assim, ao aliar-se ao PSDB, o partido virou o capítulo de sua história escrito por Arraes e companheiros, e o seu legado. As primeiras páginas de um novo capítulo foram escritas por Campos, seu neto. O tempo dirá que legado este deixará ao partido.

Por Túlio Velho Barreto

Fonte: Jornal do Commercio

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