Louise

Foi assim – em meio à guerra de nervos do segundo turno da eleição presidencial – que Louise nasceu, na noite do dia 10 de outubro do ano de 2014, sob uma lua cheia e sob o signo de Libra. As famílias Accioly e von Sohsten foram convocadas para a antessala de um quarto, no quinto andar do Hospital-Maternidade Santa Joana, onde melhor se conheceram. Louise nasceu recifense, pernambucana, brasileira, a 16 dias da eleição que, marcada para 26 de outubro, coincide com o dia do aniversário dos primeiros cem anos do meu pai, Japhet Accioly, bisavô de Louise. Por isso, entusiasmado com as eleições de Pernambuco – o sonho vivo de Eduardo Campos – cujos votos escolheram Paulo Câmara e Raul Henry para o governo, Fernando Bezerra Coelho para o Senado, Jarbas Vasconcelos para a Câmara Federal e Valdemar Borges para a Assembleia Legislativa – Japhet resolveu trocar a comemoração do seu aniversário pela festa da eleição de Aécio Neves: “O meu voto – no meu dia e dia do renascimento do País – terá o peso de um século e um ano, neste País de 514 anos”.

Foi assim que Louise nasceu. O meu irmão, Nestor, após trocar os propés de astronauta e a gorra de Dante Alighieri (paramentos obrigatórios para assistir ao parto da filha – Rhaissa) trouxe as fotografias para a mulher, Paula, e para o genro, Eduardo, com a notícia: “Louise nasceu!”. Logo todos subimos ao berçário do sexto andar e todas as mulheres se acharam parecidas com Louise e Louise se achou parecida com a luz e com o ar. “No final do mandato ela terá quatro anos” – alguém lembrou, pensando na política, e teve resposta imediata: “Mas só poderá votar com 16 anos: quatro vezes quatro”. Ao que meu pai acrescentou: “Então, como eu já votei uma vez em Marina, posso votar vinte e cinco vezes em Aécio”. E a minha irmã, Eunice, comentou: “Amanhã, Marina vai anunciar o seu apoio a Aécio, o que significa 22.176.619 votos”. Alguém completou: “Eduardo, nem morto, desistiu do Brasil”.

Louise, talvez para ficar mais perto da terra que da água, desceu um andar: do sexto para o quinto e ficou no quarto. “Veio para a primeira mamada, ou para a política leite com leite, café com leite e leite com açúcar?” – um perguntou a Louise e outro respondeu: “Ela veio para a política do leite da seringueira”. Todos estávamos descontraídos e felizes. A noite era de Louise, a lua era de Louise, as estrelas eram de Louise, mas, pela proximidade da eleição, a política era um mar que vinha e voltava, com sua areia misturada à onda. Tudo isso durou até 0h. Louise, depois de nove meses em silêncio, começou a ouvir os sons das vozes humanas e do seu nome, pela primeira vez, pois, se a audição é o último sentido que morre com o homem, também deve ser o primeiro que nasce com ele.

O nascimento de Louise, como o de outro qualquer menino, ou menina, na antevéspera do dia da criança, foi uma resposta à avalanche de interesses, mentiras, escândalos, propinas e corrupções que devastam o país desgovernado. Resposta que o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto encontrou como esperança no final de Morte e vida Severina: “E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida/vê-la desfiar seu fio/que também se chama vida/vê a fábrica que ela mesma/teimosamente, se fabrica”. Cabral havia usado, nas edições primeiras do seu livro, a palavra “pacientemente”, em lugar de “teimosamente”. Fez a correção do verso para acentuar que, em tais casos, como do Nordeste e/ou do Brasil, a vida às vezes é uma teimosia. A segunda resposta foi dada pelo escritor mineiro João Guimarães Rosa, no seu livro Grande Sertão: veredas: “Entrei no olho da casa, lua me esperou lá fora. Mulher tão precisada: pobre que não teria o com que para uma caixa de fósforo (..) Eu tirei da algibeira uma cédula de dinheiro, e falei: – “Toma, filha de Cristo (…) Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar!…’ E saí para as luas”. Louise ficou no quarto, com Rhaissa e Eduardo, e todos nós saímos para as luas.

Por Marcus Accioly

Fonte: Jornal do Commercio

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