A Memória de Arraes

Miguel Arraes de Alencar

Todos os dias da semana, Dona Madalena Arraes deixa o aconchego do seu apartamento e se dirige à residência onde viveu por mais de três décadas ao lado do marido e dos filhos, no bairro de Casa Forte, na Zona Oeste do Recife. A luta dela é uma só: legar à esta e às gerações futuras o acesso à vida e à obra do homem que dedicou toda a sua existência à causa pública, sempre em defesa da população mais necessitada.

Miguel Arraes de Alencar começou a sua vida pública precocemente. Aos 17 anos passou num concurso para o extinto o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Depois, foi secretário da Fazenda, deputado estadual e federal, prefeito do Recife e três vezes governador de Pernambuco.

Quando estava à frente do governo de Pernambuco pela primeira vez, em 1964, depois de ter sido eleito pelo povo, o País foi golpeado pelos militares. Arraes não aceitou abrir mão do seu direito constitucional de continuar à frente dos destinos do Estado em troca de uma liberdade concedida, e pagou um preço alto: amargou um exílio de 15 anos num longínquo país africano.

Toda essa trajetória de vida de Miguel Arraes está documentada em livros, cartas, documentos, fotografias, recortes de jornais, revistas, objetos pessoais, vídeos e filmes. Dona Madalena reuniu os filhos, netos e amigos para organizar esse acervo e proporcionar a estudantes, professores e pesquisadores uma consulta a essa fase rica da política brasileira. O primeiro passo foi criar o Instituto Miguel Arraes (IMA), que tem Antônio Campos, neto de Arraes, como presidente, e Dona Madalena como diretora executiva.

Ao todo, são aproximadamente 200 mil itens, dos quais 160 mil já foram higienizados e encontram-se acondicionados em material adequado à conservação de papéis. As obras contêm ainda trabalhos de análises da situação vigente no Brasil e explicações sobre os fatos políticos que ajudam a compreender os rumos impostos ao País na primeira metade da década de 60.

Todo esse trabalho está sendo custeado com recursos do IMA e com a colaboração da Fundação João Mangabeira. Muitos dos documentos jamais foram vistos por historiadores ou pesquisadores. Há correspondências de Arraes com lideranças políticas, do Brasil e do exterior, artistas, escritores e intelectuais: Alceu Amoroso Lima, Betinho, Caetano Veloso, Glauber Rocha, Carlos Marighela, Luiz Carlos Prestes, Celso Furtado, Dom Hélder Câmara, Fernando Gabeira, Carlos Drummond de Andrade, Márcio Moreira Alves, Francisco Julião, Gilberto Gil, Gregório Bezerra, Leonel Brizola, Marcos Freire, Oscar Niemeyer, papa Paulo VI, Paulo Freire, senhora Salvador Allende, Tom Jobim, Ulysses Guimarães, Yasser Arafat, entre tantos outros.

E é essa responsabilidade histórica de preservar tão rico acervo que faz com que Dona Madalena Arraes, nos seus 81 anos de vida, encontre diariamente a energia necessária para não deixar que se apague da memória da coletividade tão nobre contribuição que o ex-governador Miguel Arraes legou ao povo pernambucano e brasileiro.

Por Ítalo Rocha Leitão 

Fonte: Diario de Pernambuco

One thought on “A Memória de Arraes

  1. Como funcionária pública digo que Arraes trouxe benefícios e salários dignos para nós e como cidadã pernambucana colocou luz, água e irradiou esperanças em melhorar a vida dos mais humildes, antes esquecidos pelos governantes. Foi um exemplo para Pernambuco e conseguiu com a sua simplicidade deixar a marca de sua presença como governador e cidadão brasileiro. Queria muito que ele servisse de exemplo para os governantes atuais em simplicidade e gostar realmente de ajudar ao próximo. Recordar é viver sonhar por dias melhores sempre!!! Obrigada ao Escada. Com para nos trazer esta lembrança que jamais esqueceremos.

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