O arquivo do exílio

20180926_193724 (2)

*Fonte: Diario de Pernambuco – Caderno especial – “Miguel Arraes – o arquivo do exílio”

Viúva do ex-governador de Pernambuco abre acervo sobre os 14 anos da história da família na Argélia, durante a ditadura militar no Brasil

Esta reportagem conta a história de quatorze intensos anos da vida de um homem. De uma história escrita com as próprias mãos. As mesmas mãos que estavam estendidas para o alto no dia 16 de setembro de 1979, há 30 anos, quando Miguel Arraes desembarcou no Brasil depois do exílio na Argélia. Mãos que simbolizavam uma vitória. Um recomeço.

Esta é uma reportagem escrita a partir das milhares de páginas produzidas por Arraes no exílio. Correspondências pessoais inéditas. Testemunhos que documentam fatos ainda pouco conhecidos. Um arquivo que começa a se tornar público hoje e que ajudará a entender como pensava o homem que dizia ter “duas mãos e o sentimento do mundo”.

“Tenho duas mãos e o sentimento do mundo”. A primeira vez em que Miguel Arraes de Alencar utilizou esse verso do poeta Carlos Drummond de Andrade foi durante sua posse como governador de Pernambuco em 1963. Dezesseis anos mais tarde, ele evocou o mesmo poema no encerramento do discurso no comício do Largo de Santo Amaro, no Recife, onde mais de 50 mil pessoas celebravam seu retorno do exílio. Entre uma data e outra, o verso ganhou força e um novo significado. Simbolizou o reencontro de Arraes com aqueles que o elegeram para um mandato interrompido bruscamente pelo golpe militar de 1964 e também a experiência adquirida nos 14 anos de exílio na Argélia, na África.

Durante esse período, Arraes se envolveu numa intensa atividade política, não apenas relacionada ao Brasil, mas a vários outros países que buscavam sua independência. Os anos 60 e 70 são fortemente marcados por lutas de libertação e pela ascensão e derrocada de regimes ditatoriais em todos os continentes.

O ex-governador conheceu essas realidades ediversos líderes mundiais relacionados com os movimentos progressistas. Manteve com eles um diálogo estreito sobre questões do Terceiro Mundo. Aprofundou sua análise sobre o Brasil e alargou seu campo de interesse e de atuação. O homem sertanejo, do Araripe, tornou-se cosmopolita. O desterro imposto pelos militares, na verdade, se reverteu numa rica vivência política. Pode-se dizer que Arraes realmente conheceu o “sentimento do mundo”.

Desde a volta de Arraes ao Brasil, passaram-se 30 anos e pouco se conhece sobre a vida do ex-governador na Argélia. O Diario de Pernambuco apresenta neste caderno especial um resgate das atividades políticas de Arraes no exílio a partir dos documentos do acervo particular do próprio ex-governador. Material ainda inédito, que estará disponível a pesquisadores no Instituto Miguel Arraes, em fase de estruturação. São correspondências, relatórios, análises, livros, boletins, folhetos, jornais, revistas, tudo que chegou às mãos dele ou foi produzido por ele naquele período.

Madalena Arraes, viúva do ex-governador e guardiã das memórias do marido, gentilmente abriu as portas de sua residência, onde deverá ser a sede do Instituto, e permitiu a realização desta pesquisa. As informações foram complementadas por fontes bibliográficas e, em especial, por entrevistas com brasileiros, argelinos, moçambicanos. Pessoas que conviveram com Arraes no exílio.

Só foi possível escrever sobre essa trajetória graças ao cuidado de Arraes com os seus “papéis”. Talvez consciente da importância histórica dos acontecimentos em que estava envolvido, o ex-governador de Pernambuco guardou absolutamente tudo relacionado às suas atividades políticas, aos acontecimentos do Brasil e do mundo na época. Até mesmo as cartas que escrevia tinham cópias para serem arquivadas. Permitindo, dessa forma, reconstruir os 14 anos de exílio.

O arquivo de Arraes foi retirado da Argélia, depois da volta do ex-governador ao Brasil, e passou muitos anos na residência do ex-deputado Márcio Moreira Alves no interior da França. As caixas, depois que chegaram ao Brasil, só foram abertas após o falecimento de Arraes, em agosto de 2005. O material sofreu a ação do tempo e precisou ser recuperado – uma grande parte continua em restauração. Nas páginas a seguir, esse acervo é revelado, com exclusividade, aos leitores do Diario.

Fontes bibliográficas

Os Ares do Mundo – Celso Furtado – Paz e Terra

Conversações com Arraes – Cristina Tavares e Fernando Mendonça – Veja

Daquilo que eu sei – Fernando Lira – Iluminuras

A Ditadura Envergonhada – Elio Gaspari – Cia. das Letras

A Ditadura Escancarada – Elio Gaspari – Cia. das Letras

A Ditadura Encurralada – Elio Gaspari – Cia. das Letras

A Ditadura Derrotada – Elio Gaspari – Cia. das Letras

O Drama Barroco dos Exilados do Nordeste – Lucili Grangeiro Cortez – UFC e UFPE

Estudos Afro-asiáticos – nº 4 – 1980 – Edição de Cadernos Candido Mendes

A Fantasia Organizada – Celso Furtado – Paz e Terra

A Fantasia Desfeita – Celso Furtado – Paz e Terra

Miguel Arraes – Pensamento e Ação Política – organização de Jair Pereira, Juareiz Carrero, Raimundo Carrero, Ricardo Leitão e Vanja Carneiro Campos – Topbooks

A Revolução Impossível – Luís Mir – Best Seller

Problèmes d’Amerique Latine – Notes e etudes documentaires – La Documentation Française

Instituto Miguel Arraes preservará acervo


Todo o arquivo de Miguel Arraes estará à disposição de pesquisadores no Instituto que leva o nome do ex-governador. Idealizado por Madalena Arraes, o Instituto ainda enfrenta trâmites burocráticos para entrar efetivamente em atividade. “Foi um movimento natural de amigos, da família e dos correligionários para a preservação do acervo de uma vida política longa e rica”, explica Madalena. Ela acredita que o local deve entrar em pleno funcionamento no próximo ano depois da autorização do ministério da Justiça. “Ter ideias é sempre perigoso, porque depois precisamos concretizá-las”, brinca.

Além do acervo de documentos do exílio, o Instituto dispõe de uma biblioteca com seis mil volumes, documentos dos governos comandados por Arraes (Prefeitura do Recife entre 1960 a 1962 e governo do estado de 1962 a 1964, de 1987 a 1990 e de 1994 a 1998) e relacionados às atividades parlamentares desenvolvidas por ele. Arraes foi duas vezes deputado estadual na década de 50 e três vezes deputado federal, em 1982, em 1990 e em2002. Uma boa parte dos documentos ainda está sendo recuperada e restaurada por uma equipe de historiadores e bibliotecários. Outros profissionais trabalham com a identificação e catalogação do material.

Agradecimentos

A Madalena Arraes, por ter aberto seu acervo particular, sem impor nenhum tipo de limite para a realização desta pesquisa, e pela disponibilidade em dividir suas memórias. Aos entrevistados, pela imensa boa vontade em recordar os fatos e dividi-los com a reportagem. Ao jornalista Nacer Mehal, pela colaboração e pelo depoimento. A Amandio Silva, pela importante contribuição em Portugal. A Sandra Maia, Sheila Maia, Flávia Carla Pires, Daniele Monclair, Maria de Lourdes Bezerra, Camila Augusta e Martha Terena, que trabalham na restauração, classificação e arquivamento dos documentos do Instituto Miguel Arraes, pela ajuda na realização da pesquisa. Ao presidente estadual do PSB, Milton Coelho, e a Everardo Norões pelas sugestões. A José Almino e Zdenka Pinheiro, pelo incentivo.

Flagrante nas memórias de Miguel Arraes


O adeus ao Brasil, após um ano de prisão

O ex-governador Miguel Arraes deixou o Brasil com destino à Argélia, país do norte africano, no dia 17 de junho de 1965. Não sabia ele que ao deixar a terra natal, ao lado da esposa, Madalena Arraes, e se exilar no segundo país mais extenso daquele continente, presenciaria um novo golpe de estado. O que poderia ser considerado como um azar imenso tornou-se uma circunstância favorável para Arraes. Os argelinos, mesmo com a mudança de governo, fizeram questão de cumprir os compromissos assumidos com os exilados. A Constituição do país determinava que a Argélia deveria receber todos aqueles que lutassem pela liberdade em seus países de origem.

Recém saída da luta de libertação contra os franceses, a Argélia ainda vivia a instabilidade política de um país independente há pouco tempo. Arraes e Madalena acompanharam os primeiros momentos da deposição do primeiro presidente da república argelina, Ben Bella, a partir do hotel onde estavam hospedados, o Saint Georges, com informações transmitidas pelo rádio e pelos funcionários do local, que trataram logo de tranquilizá-los, pois o “golpe era esperado pela população”.

O susto só passou mesmo uma semana depois, quando o embaixador argelino no Brasil, Tayebi Larbi, que os acompanhou na viagem do Rio de Janeiro até Argel, capital do país, retornou ao hotel e explicou a situação. Larbi era um dos conspiradores contra a administração de Ben Bella e tornou-se ministro da Agricultura no novo governo. Ele estava no Brasil dois meses antes e teve como uma de suas primeiras missões diplomáticas receber Arraes na Embaixada. Isso aconteceu numa noite de chuva torrencial no Rio de Janeiro, como lembra Madalena. “Chegamos à Embaixada durante a madrugada, o embaixador não estava nem nos esperando, mas nos recebeu e garantiu o asilo político”, conta.

Arraes não tinha pretensões de deixar o Brasil, mas foi obrigado pelos fatos. Depois de um ano preso em quartéis do Recife, de Fernando de Noronha e do Rio de Janeiro e solto por força de um habeas corpus, estava sem nenhuma garantia de que permaneceria em liberdade. Como réu de inquéritos policiais militares era sempre convocado para depor. Em um desses depoimentos, teve a prisão decretada, que só não foi concretizada porque “no local não estava presente uma autoridade militar de patente suficientemente alta para autorizar a detenção”.

Numa reunião entre amigos e familiares, que varou a madrugada no Rio de Janeiro, ele decidiu sair do Brasil. A América Latina foi a primeira opção, mas Arraes não foi aceito em nenhum dos países consultados. “Um jornalista amigo dele (de Arraes), Darwin Brandão, conhecia o encarregado de negócios da Argélia no Brasil e conversou com ele sobre a possibilidade do exílio. Fomos aceitos, mas tivemos que esperar a chegada do novo embaixador”, diz Madalena. Daquela noite chuvosa até o embarque para a Argélia passaram-se dois meses – Arraes esperou a liberação do salvo-conduto e a entrega do passaporte de Madalena. E outros 172 meses até que a família Arraes pudesse voltar ao Brasil, no dia 15 de setembro de 1979.

O exílio na meca dos revolucionários

Precursora da luta contra a colonização europeia, Argélia abriu suas fronteiras aos militantes

A África nos anos 60 e 70 era um continente em ebulição, cenário de guerras contra a colonização europeia. A Argélia foi precursora dessa luta ao enfrentar os franceses e conquistar a independência em 1962. Abriu, então, as fronteiras para os movimentos de libertação africanos. Não apenas para eles. Mas para todos os que lutavam pela independência de seus países, como os socialistas portugueses, combatentes da ditadura de Antonio Salazar, e os brasileiros contrários ao regime militar. Até militantes dos Panteras Negras, grupo revolucionário de defesa dos direitos dos negros nos Estados Unidos, tinham lugar em solo argelino.

O ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, ao chegar ao exílio, encontrou um país em reconstrução, ainda com a lembrança muito viva dos 15 anos de batalhas violentas contra os franceses. Era preciso criar infraestrutura, formar recursos humanos (apenas três argelinos tinham diplomas universitários após a libertação), recuperar a população dos traumas de guerra e, sobretudo, construir uma identidade nacional. Muitos argelinos (a maioria muçulmana) sequer falavam árabe – durante a dominação francesa, a língua oficial era o francês. O governo importou professores de outros países para dar aulas nas escolas. Ao mesmo tempo, era um abrigo efervescente de discussões e ações políticas, o que encantou Arraes.

Às margens do Mediterrâneo e com a maior parte do território ocupada pelo deserto do Saara, a Argélia ficou conhecida como a “Meca dos Revolucionários”, batismo conferido por Amílcar Cabral, líder do movimento de independência da Guiné Bissau, país da costa ocidental da África. Arraes foi recebido no país com honras de chefe de estado – morou em residências do perímetro do palácio presidencial -, talvez como uma retribuição ao reconhecimento da independência da Argélia depois da guerra contra a França, quando ele ainda era governador de Pernambuco.

Como uma forma de garantir o sustento da família e de ajudar os exilados que chegavam ao país, Arraes atuou como consultor. Paralelamente, mantinha sua atividade política e tornou-se referência não só para os brasileiros que lutavam pela liberdade, mas também para os movimentos de independência de outros países, principalmente da África lusófona.

O ex-vice-presidente do Congresso Nacional do Povo da Argélia Djellou Malaïka destaca que Arraes mantinha contatos privilegiados com os movimentos de libertação africanos, com progressistas europeus e com o escritório da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e com seu líder, Yasser Arafat (falecido em 2004). Arraes participou de reuniões na Palestina. Não há registros oficiais sobre o fato, mas pessoas que conviveram com o ex-governador lembram de viagens dele para os territórios ocupados pelos israelenses. Entre os documentos de Arraes, há cartas trocadas com Arafat, como uma de 1975, na qual Arraes fala sobre a posição brasileira em relação ao mundo árabe.

Malaïka, após a revolução argelina, tornou-se o dirigente da Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN), responsável pelas relações do partido e do governo com os “revolucionários” instalados no país. “Arraes encontrou na Argélia um ambiente favorável, porque aqui ele poderia intensificar seus contatos com os movimentos de libertação, possibilitando o aumento da atividade política”, afirma Malaïka. Para ele, o ex-governador fazia uma “análise perfeita sobre as grandes questões da época”.

“Ele sempre encontrava ouvintes simpáticos, como o então presidente Houari Boumedienne e ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdelaziz Bouteflika (atual presidente da República da Argélia)”, conta. “Muitas vezes as discussões centravam-se sobre os problemas do Terceiro Mundo, particularmente da América do Sul”.

Argélia

Área: 2,3 milhões de quilômetros quadrados

População: 32 milhões de habitantes

PIB: US$217,2 bilhões (estimativa de 2004),

38º lugar entre os países do mundo

IDH: 0,733 (2007), 104º no ranking.

Moeda: Dinar argelino

- Colaborou Kaci Cherfi, da Algérie Presse
Service, agência de notícias da Argélia

Passaporte carimbado pela militância

Já adaptado à Argélia, Arraes foi convocado a reassumir seu papel entre as lideranças de esquerda e estabeleceu contatos em vários países. Além de circular pela Europa, foi ao Chile de Allende, à Cuba de Fidel, à China de Mao e à Palestina de Arafat

Para viver o exílio, Miguel Arraes dizia ser preciso ter resistência. Resistir para aprofundar o conhecimento sobre as questões do Brasil e para evitar que a separação física resultasse em alienação, no afastamento dos acontecimentos, dos problemas e das mudanças do país. Os primeiros meses do ex-governador de Pernambuco na Argélia foram dedicados quase exclusivamente à leitura, aos estudos e ao estabelecimento de contatos com o Brasil e com as lideranças políticas brasileiras que haviam sido banidas do país, a maioria exilada na América do Sul.

A distância do Brasil, as diferenças culturais e o isolamento inicial preocupavam Arraes. As dificuldades de adaptação só foram superadas à medida em que o ex-governador passou a dominar o francês, segunda língua da Argélia, que começou a aprender enquanto esteve preso no Brasil, por sugestão da esposa, Madalena, e quando passou a estreitar os laços com os integrantes da Frente de Libertação Nacional (FLN), partido que detinha o poder argelino. Isso determinou a aproximação de Arraes de outros exilados naquele território, especialmente integrantes dos movimentos de libertação da África. Arraes, assim, ampliou o alcance de sua atividade política, participando de discussões com lideranças do Terceiro Mundo e de partidos progressistas europeus.

Os contatos com o Brasil e com os brasileiros fora do país, a princípio, eram escassos. O ex-prefeito de Natal (RN) Djalma Maranhão, exilado em Montevidéu, no Uruguai, escreveu a Arraes, em dezembro de 1965, sete meses após a chegada na Argélia, reclamando da ausência do ex-governador no cenário político. “Você não escreve e não se articula. Não podemos deixar que os outros façam a revolução por nós. Sei que você não é homem de ilusões. E sendo aquele velho realista nordestino, precisa ocupar o lugar que a história lhe destinou no panorama brasileiro”. Algumas lideranças da esquerda brasileira, como mostram cartas do arquivo de Arraes, chegaram a debater a conveniência de o ex-governador permanecer na África e outros defenderam a volta dele ao Brasil, como Carlos Marighella.

Quando já estava adaptado à Argélia, Arraes intensificou a troca de correspondências e organizou uma rede de contatos que podiam circular livre ou clandestinamente entre os três continentes – América, Europa e África. O ex-ministro da Defesa Waldir Pires lembra que esteve clandestino na Argélia em 1966 para discutir questões políticas com Arraes. No arquivo do ex-governador, existe a prestação de contas dessa reunião, que foi chamado de Primeira Conferência de Argel. Entre os papéis, encontram-se 12 canhotos de passagens aéreas emitidas. Além de Waldir Pires, foram convidados Djalma Maranhão, Almino Afonso (exilado no Chile) e Hebert José de Souza, o Betinho, que ainda se encontrava no Brasil – ele foi exilado no início da década de 70. Com o recrudescimento da ditadura no governo Médici (1969-1974) e a sinalização de mudanças com Ernesto Geisel (1974-1979), essa rede ficou mais eficiente.

Arraes não veio clandestinamente ao Brasil, mas viajou muito para manter contatos com os brasileiros e com outras lideranças mundiais. Não tinha passaporte brasileiro, mas recebeu um passaporte diplomático do governo argelino. Paris tornou-se uma espécie de segunda casa do ex-governador, apesar de ele ter passado um tempo proibido de entrar na França por causa de um decreto assinado pelos franceses atendendo a um pedido dos militares brasileiros, revogado posteriormente.

Arraes circulou pela Europa e foi ao Chile, ainda durante o governo de Salvador Allende. Também esteve em Cuba, para conversar com Fidel Castro e com os brasileiros que lá estavam; na Palestina, em encontros promovidos pela Organização pela Libertação da Palestina (OLP); e na China, onde permaneceu 20 dias a convite do Partido Comunista – na época, o mundo estava impressionado com a marcha de Mao Tse-Tung. Além disso, os estudos e análises publicados por Arraes tiveram grande repercussão e o ex-governador foi convidado para participar de seminários, debates e congressos.

1966

Fevereiro

- Castello Branco torna indiretas as eleições para governadores no Brasil.

- O padre Camilo Torres morre na selva colombiana.

Março

- Protestos no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte contra a ditadura.

- Duas bombas explodem no Recife.

Maio

- Começa em Xangai a revolução cultural chinesa.

- Manifestação contra a guerra do Vietnã em Washington (EUA).

Junho

- Golpe militar na Argentina: general Onganía assume o poder.

Julho

- Atentado a bomba contra Costa e Silva no Aeroporto dos Guararapes, no Recife.

- Fracassam duas tentativas cubanas de implantar uma guerrilha na Venezuela.

Outubro

- O Congresso elege Costa e Silva presidente do Brasil.

- Castello Branco fecha o Congresso por dez dias e cassa seis deputados.

Novembro

- JK e Carlos Lacerda encontram-se em Lisboa (Portugal) e unem-se na Frente Ampla.

- Che Guevara chega às montanhas da Bolívia.

1967

Janeiro

- Promulgada a nova Constituição brasileira.

Fevereiro

- Muda a moeda brasileira, começa a era do Cruzeiro Novo.

Março

- Costa e Silva toma posse como presidente do Brasil.

- Delfim Neto assume Ministério da Fazenda.

Abril

- Deposto o rei Constantino da Grécia. Assume uma junta de militares.

Maio

- Criado o Centro de Informações do Exército (CIE), no Brasil.

- Carlos Mariguella, um dos principais líderes da esquerda no Brasil, manda militantes a Cuba.

Junho

- Sargentos cassados fundam o que viria

a ser a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

- Guerra dos Seis Dias. Israel entra em Jerusalém e toma à Síria as colinas de Golan

Julho

- Morre Castello Branco.

- A 1ª Conferência da Olas começa em Havana (Cuba).

Outubro

- Assassinato de Che Guevara na Bolívia.

Novembro

- Aliança Libertadora Nacional (ALN)

assalta um carro pagador e mata um fazendeiro em São Paulo.

Dezembro

- Carlos Mariguella rompe com o PCB.

“Ele sofria de uma nostalgia tão forte quanto sua fibra patriótica”


Nacer Mehal
Especial para o Diario

“É difícil descrever o homem e o militante Miguel Arraes em algumas linhas. Em Alger – nos anos de exílio -, Miguel se tornou, em pouco tempo, o ícone de todos os políticos e observadores, uma vez que, naquela época, a capital argelina era, segundo as palavras de Amilcar Cabral, ‘A meca dos revolucionários’. É preciso, provavelmente, começar por descrever a época antes de descrever o homem, porque os dois estão intimamente ligados, indissociáveis na voluptuosidade da luta revolucionária que tinha como trama a dignidade do homem.

Em Alger se encontravam angolanos, palestinos, moçambicanos, gente da África do Sul, da Namíbia, em suma, de todos os territórios, de todos os horizontes, de todas as raças e etnias, de todas as religiões. Em comum, uma palavra: libertação. Lá estava nosso caro amigo Miguel Arraes. Ele amava escutar, era um pouco loquaz, às vezes explosivo. Tudo dependia do interlocutor e do assunto. Ele tinha uma fibra patriótica tão forte que sofria de uma nostalgia tão forte quanto. Reencontrava suas forças na finalidade da luta, nas promessas de dias futuros de liberdade para o povo brasileiro.

Miguel possuía o dom de analisar as coisas do mundo em poucas palavras: ligava os sofrimentos de seu povo a outros sofrimentos, como o dos vietnamitas, dos sul-africanos ou dos palestinos. Ele assegurava a continuidade destas lutas. Regava seus convivas, a um certo ponto numerosos, com uma séria dose de otimismo. Era o precioso conselheiro de Aristides Pereira (do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC), de Amílcar Cabral (do PAIGC), de Eduardo Mondlane (da Frente de Libertação de Moçambique – Frelimo), de todos aqueles que queriam conhecer, saber qual seria a ligação entre a África e a América do Sul.

Pouco a pouco, depois da Revolução dos Cravos em Portugal, as primeiras flores começaram a desabrochar: as flores da liberdade reencontrada. Miguel participava de todas essas festas e celebrações, esperando o vento do Brasil…. Para viver à sua vez o sonho de toda uma vida.”

- Diretor da Agência de Notícias da Argélia (APS). Conheceu Arraes durante os anos 70, quando a FLN, partido que liderou a luta contra o colonialismo francês, promovia o contato da imprensa com as lideranças políticas. O último encontro entre Arraes e Mehal foi em 1984, durante as comemorações dos 30 anos da independência argelina

Entrevista // Madalena Arraes


“Grande parte do tempo era para conversar sobre política”

Como foi a chegada à Argélia, quais as primeiras impressões?

A Argélia já tinha recebido todo mundo, tinha sido muito invadida na sua história. Eles eram berberes e enfrentaram as invasões africanas, dos romanos, dos turcos, por fim, dos franceses. Era um povo acostumado a lutar contra os invasores e bastante misturado. Um povo mais rústico, mais simples, mas também sofisticado, porque vem de uma cultura muito antiga, muito rica.

Houve um golpe logo após a chegada ao país?

O embaixador argelino (Tayebi Larbi), que tinha acabado de chegar ao Brasil, estava envolvido com o golpe e tinha que voltar para a Argélia. Então, ele voltou conosco. Chegando lá, nos deixou no hotel, bem acomodados, e nos avisou que teria que fazer uma viagem. Esperamos quase uma semana que alguém aparecesse. O embaixador sumiu porque tinha ido para a Oran (cidade argelina) para garantir o sucesso do golpe de (Houari) Boumediène (ex-presidente da Argélia).

Como souberam do golpe?

No dia seguinte, 19 de junho, estávamos tomando café damanhã e, de repente, ouvi do vizinho uma voz pelo rádio com ar de proclamação, algo muito solene. Fomos ao quarto, liguei o rádio imediatamente e ainda peguei um pedacinho do pronunciamento. Percebi que havia acontecido um fato muito sério. Procurei falar com os funcionários do hotel e eles disseram ser algo já previsto, porque as coisas não estavam indo bem. Pensei: “Meu Deus, não é possível, nós saímos de um (golpe) para cair em outro”. Mas foi tudo tranquilo para o nosso lado. O embaixador virou ministro da Agricultura e nós continuamos a ter contato com ele.

Como era a rotina de vocês?

No começo, era aquela agonia de não ter o que fazer. E como a gente tinha ficado muito tempo preso, com a vida muito limitada, tinha um certo medo de sair. Nosso reflexo era de muita insegurança. Mas aí passamos a sair, andar pela cidade para ir conhecendo. Os argelinos, então, disseram para nos preparar, porque certamente viriam outros companheiros nossos e teríamos que dar assistência. E realmente foi chegando mais gente. Ficamos numa casa grande, com três pavimentos, e acolhemos a todos.

Era uma rotina de certa tranquilidade…

Com a chegada dos 40 brasileiros, trocados pelo embaixador Von Holleben (em junho de 1970), nossa rotina mudou bastante, porque a gente passou a dar uma assistência grande a eles. Tínhamos que ajeitar, porque vinham famílias inteiras. Inicialmente, eles foram atendidos em um centro, que era uma espécie de colônia de férias, com vários chalés. Depois, cada um foi vendo o que fazia da vida. Mas, na chegada, precisavam de muito apoio, porque tinham sofrido bastante aqui.

Mas eles não se adaptaram à Argélia e saíram do país, não é?

A maioria deles não ficou, preferia a Europa, que era mais animada. A Argélia era um lugar para a gente ler, estudar, conversar sobre política… Era muito bom para isso. Agora, para se divertir, ter movimento social, nada. Quem conseguiu se encaixar por lá, e foi pouca gente, ficou.

Os contatos políticos de Miguel Arraes começaram logo na chegada ao país?

Ah, sim. Osargelinos se encarregavam de fazer as apresentações, até que todo mundo se entrosou. O pessoal de Angola, Moçambique já estava lá, na batalha. E tinha gente de outros países – até da Suíça tinha refugiado político na Argélia. Eles acolhiam todo mundo, porque havia um artigo da Constituição argelina que dizia que a Argélia daria acolhida a todos aqueles que lutassem pela liberdade em seus países. Eles sempre cumpriram esse artigo da Constituição. Então, juntava gente do mundo inteiro, era uma animação. O país era um ponto de encontro mundial.

Como eram os contatos políticos com o Brasil?

Era assim: ia alguém daqui para a Europa, para Paris, e Miguel ia até lá. Teve até uma vez em que ele foi a Moscou (Rússia) para falar com (Luiz Carlos) Prestes. Também ia muito para a Itália, onde tinha um núcleo de amigos que davam muito apoio aos brasileiros, ao Front (Frente Brasileira de Informação).

Além dos contatos políticos e da assistência aos exilados, como era o trabalho de Arraes?

Ele passava muito tempo junto à máquina de escrever, para produzir artigos e manter contatos com todos, e em encontros com as pessoas. Depois, ele começou a dar uma assessoria ao pessoal que fazia comércio com o Brasil. E teve um trabalho grande em Moçambique, uma barragem que foi negociada com os brasileiros, localizada entre Moçambique e África do Sul. Ele atuava como consultor e recebia por isso, o que nos ajudou muito lá. Mas a grande parte do tempo era para ler, escrever e conversar sobre política.

Arraes também teve uma participação importante nos movimentos africanos pela independência das ex-colônias portuguesas…

Miguel tinha contatos excelentes com eles (os revolucionários). Discutiam muito o direcionamento da estratégia, da ação política. Mas eu não estava sempre presente. Sei que era uma conversa política sem fim. E, aos domingos, eles iam lá para casa para jogar biriba, baralho, porque não tinha muito o que fazer na Argélia. As pessoas não tinham família lá, eram todos desterrados e todos de língua portuguesa, então,juntava tudo.

E a senhora, como ocupava o tempo?

Comecei a lecionar na Universidade Argel em 67 ou 68 e fiquei uns seis anos. Ensinei português e, depois, literatura portuguesa. Nossa equipe tinha uma francesa que dava a parte da literatura portuguesa, outra francesa que lecionava espanhol e um brasileiro. Depois, houve uma mudança no ensino de português, e ele deixou de ter essa importância, passou a ser apenas uma segunda língua, e a cadeira a ser apenas de iniciação. Deixou de ser interessante para mim e resolvi sair. Fiquei, então, só fazendo uns trabalhos de tradução. E aí, foi chegando o tempo de voltar.

“A Argélia acolhia todos aqueles que lutavam pela liberdade em seus países”

Um líder sertanejo a serviço da independência africana

Durante o exílio, Arraes foi conselheiro de confiança de várias lideranças da África, que frequentavam a casa dele e traçavam, com sua participação, estratégias de aliança, combate e reconstrução de seus países

O batismo de “meca dos revolucionários” dado por Amílcar Cabral, líder da Guiné Bissau, não foi à toa. A Argélia reunia e apoiava os grupos revolucionários de várias partes do planeta e, assim, proporcionava um ambiente favorável para o debate e para a ação política. O país também integrava os movimentos dos países não-alinhados, que pretendiam criar uma terceira força, contra os Estados Unidos e a União Soviética, em plena Guerra Fria. O ex-governador Miguel Arraes, após a fase de adaptação ao exílio e com a ajuda dos argelinos, se inseriu entre os revolucionários e não tardou a se relacionar com todos.

A aproximação foi maior, mas não restrita, com os líderes da luta de independência das ex-colônias portuguesas na África. “Mantive relacionamento estreito com pessoas de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, dada a identidade da língua portuguesa e acompanhei de perto a luta contra o regime colonial português desde que cheguei à Argélia”, declara no livro Conversações com Arraes, de Cristina Tavares e Fernando Mendonça, de 1979. A experiência administrativa em Pernambuco como prefeito do Recife (1959-1962) e como governador do estado (1963-1964) contribuíram para o entrosamento dele com as lideranças que circulavam por Argel (capital da Argélia), principalmente quando as discussões eram sobre a montagem dos novos estados livres.

“Ele foi conselheiro de confiança de vários líderes africanos que se interessavam em debater a relação entre a África e a América do Sul”, recorda o jornalista Nacer Mehal, diretor da Algérie Presse Service (Serviço de Notícias da Argélia). A casa de Arraes era frequentada por todas essas pessoas, que dedicavam horas para traçar estratégias de alianças, de combate, de reconstrução dos países. “Doutor Arraes era articulador desses movimentos em escala internacional. Com aquele jeito sertanejo de conversar, ele conseguia apaziguar muitas questões”, afirma Yara Gouvêa, assessora da Fundação João Mangabeira e ex-integrante da Vanguarda Revolucionária Popular (VPR). Elatrabalhou com Arraes na Argélia, após ser obrigada a sair da Europa e pedir asilo político no país.

Os debates iniciais eram sobre o andamento da luta de libertação naquele continente e as relações entre os países e destes com a Europa e a América. Arraes, por exemplo, tratou com Samora Machel, presidente da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) após o assassinato de Eduardo Mondlane (fundador da Frente), sobre uma forma de contribuir para as relações entre os moçambicanos e o então presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda. Por fazer fronteira com Angola e Moçambique, a Zâmbia era um país estratégico na luta daqueles contra os portugueses. Arraes se propôs a conversar com Kuanda para ajudar no relacionamento desses países. “Arraes tinha uma rica experiência da sua luta de política no Brasil, o que foi muito útil. Igualmente, sua experiência de desenvolvimento econômico, em particular dos setores mais pobres da população, inspirou os movimentos de libertação das colônias portuguesas”, afirma o general Jacinto Veloso, ex-integrante da Frelimo e ex-diretor do serviço secreto de Moçambique.

O bom trânsito de Arraes, no entanto, não estava apenas no continente africano. Ao longo do exílio, ele estabeleceu relações próximas com a Europa, por meio dos partidos progressistas. Foi muito próximo, por exemplo, do Partido Socialista de Portugal, que combatia a ditadura daquele país. Yara Gouvêa conta que, após a Revolução dos Cravos (que derrubou a ditadura portuguesa), em 1974, os oficiais que tomaram o poder procuraram Arraes, pedindo que ele ajudasse a restabelecer as relações entre Portugal e Argélia. Assim foi feito. “Nós conversamos com as pessoas em Argel e abrimos a embaixada portuguesa em um quarto do hotel Saint Georges (o mesmo em que o casal Arraes se hospedou quando chegou à Argélia)”.

A aproximação de Arraes com os africanos continuou mesmo depois que ele foi anistiado e voltou ao Brasil. O ex-governador esteve na Argélia, em 1984, para as comemorações dos 30 anos da revolução. Foi mais uma vez ao país quando foi eleito para o segundo mandato em Pernambuco, em 1986, como uma forma de homenagem aos argelinos. Voltou outras vezes e também recebeu a visita de líderes africanos no Recife. Após a morte do ex-governador, em 2005, o governo argelino inaugurou uma praça na capital do país com o nome de Arraes.

Duas perguntas para Jacinto Veloso


O general na reserva Jacinto Veloso, hoje consultor de negócios, foi um piloto da força aérea portuguesa que desertou para lutar nos movimentos de independência dos países africanos. Foi dirigente histórico da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), homem muito próximo a Samora Machel (presidente da Frente). Após a independência de Moçambique, tornou-se responsável pela inteligência e segurança do país, um homem com um papel importante nas decisões políticas e econômicas moçambicanas. Depois que deixou o governo, tornou-se sócio de várias empresas no mercado moçambicano, alvo de controvérsias. Lançou recentemente uma biografia, Memórias em voo rasante, em que relata a história do movimento de libertação de Moçambique e do governo do qual fez parte. O livro está na terceira edição, com cerca de cinco mil exemplares vendidos. Há também uma edição em Portugal.

Qual a diferença entre Moçambique no pós-libertação e nos dias de hoje?

Moçambique após a libertação estava praticamente sem quadros de nível universitário, deveria ter uma dezena no total, todas as especialidades compreendidas. Hoje tem vários, milhares. Tinha na época alguns milhares de crianças na escola; hoje tem alguns milhões.

Como é a relação entre o Brasil e Moçambique hoje?

Naquela época (nos anos após a independência), o Brasil estava mais próximo do Portugal colonizador que dos movimentos de libertação, embora fosse refúgio dos democratas portugueses – antes da ditadura. Hoje, as relações do Brasil com Moçambique são excelentes, tanto políticas como econômicas. As relações comerciais desenvolvem-se em bom ritmo e o investimento brasileiro aumenta rapidamente no país.

O mundo brasileiro-afro-luso


A independência da chamada África lusófona foi conquistada após duras guerras iniciadas na década de 60, mas só reconhecida em meados de 70, após a Revolução dos Cravos. Os governos revolucionários tinham pela frente o desafio de reconstruir seus países, o que incluía o estabelecimento de relações diplomáticas com o mundo. Foi nesse período que o Brasil, no governo Geisel (1974-1979), promoveu mudanças na política externa, tornando-a mais voltada para o mundo árabe e para a África.

O Brasil vivia, naquela época, o milagre econômico e precisava atingir novos mercados com seus produtos industrializados. Da mesma forma que necessitava encontrar novos fornecedores de matéria-prima. Provocada pela crise internacional, foi uma mudança significativa na diplomacia brasileira, antes alinhada quase que exclusivamente com os Estados Unidos. Os novos governos africanos contaram com a ajuda do ex-governador Miguel Arraes para entender os melindres dessa transformação. Há diversas correspondências, no acervo de Arraes, trocadas com os líderes dos movimentos de libertação africanos sobre o assunto e também sobre as diretrizes internas do governo brasileiro.

“Portugal é convidado (pelo Brasil) a se alinhar à política brasileira para a construção não do mundo luso-brasileiro ou luso-afro-brasileiro, mas do mundo brasileiro-afro-luso. Em suma, o governo brasileiro tenta aplicar a estratégia americana de ‘divisão de responsabilidades’ na área que lhe está destinada, a América Latina e a África, e, dentro desta, por motivos óbvios, preferencialmente com as nações de língua portuguesa”, escreve ele, em 1974, para um dos integrantes da Frelimo, e posteriormente do governo moçambicano, Oscar Monteiro, hoje representante do conselho de especialistas em Administração Pública da ONU.

Além da realização de análises político e econômicas, Arraes esteve envolvido nos assuntos práticos das ex-colônias. Preocupados com a reconstrução, os líderes africanos aproveitaram a experiência administrativa de Arraes para criar redes de assistência básica à população, como a escolar e a de saúde. Ele também atuava como consultor de negócios (trabalho que já realizava para o governo argelino), principalmente para os moçambicanos. O ex-governador foi um dos poucos brasileiros convidados para a festa de independência de Moçambique . “A declaração de independência foi lida à meia-noite, portanto ao começar o dia fixado, sob uma chuva intensa, num estádio lotado. Foi realmente emocionante assistir à descida da bandeira portuguesa e ao hasteamento da bandeira que hoje simboliza a independência do povo moçambicano, debaixo de aplausos e cânticos, de todo o estádio”, conta ele no livro Conversações com Arraes, de Cristina Tavares e Fernando Mendonça.

Arraes também era uma espécie de ponte para a contratação de profissionais para trabalhar na reconstrução desses países. A Argélia foi o primeiro país a receber a qualificada mão-de-obra foragida da ditadura brasileira. O governo argelino convidou, por exemplo, o arquiteto Oscar Niemeyer, que estava sendo perseguidopelos militares brasileiros e exilou-se na França, para realizar projetos no país, como a Universidade Constantine e a Mesquita de Argel.

Arraes montou um bureau de cooperação técnica na Argélia, onde recebia muitos currículos, principalmente de exilados da América Latina que buscavam um meio de sobrevivência. Arraes foi procurado, por exemplo, pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), da Guiné Bissau, para indicar uma pessoa capaz de organizar a imprensa e o sistema de informações do país. Sondou o deputado Fernando Gabeira (PV) para a função (na época, também exilado), que acabou não indo.

“Homem de poucas falas e grandes convicções”


Mário Soares
Especial para o Diario

Conheci Miguel Arraes de nome, como, por exemplo, Leonel Brizola e tantos outros brasileiros ilustres, que se opuseram, desde o começo, ao golpe militar de 1964. Mais tarde, quando eu próprio fui, arbitrariamente, expulso do meu país e me fixei em Paris, onde privei com muitos brasileiros fugidos da ditadura, me falaram muito de Arraes como resistente, com grande admiração, e me informaram que vivia em Argel, após a Argélia ter conquistado a independência. Mas nunca encontrei Arraes pessoalmente, nesse período.

Anos depois, sucedeu a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, recebida com imensa curiosidade e alegria pelos brasileiros, que a seguiram à lupa. Foi então que conheci, pessoalmente, Miguel Arraes, suponho que ainda em Paris, mas depois de já haver democracia em Portugal, tendo-se criado, entre nós, uma grande empatia. Homem de poucas falas e grandes convicções. Éramos ambos socialistas e tínhamos, portanto, ideias e interesses políticos comuns. Estabelecemos relações de grande solidariedade e simpatia recíproca.

O sucesso da Revolução Portuguesa – que acabou com as guerras coloniais e fez a paz nas colônias, descolonizando-as num prazo recorde – democratizou Portugal e desenvolveu a economia, com atenção especial pelas questões sociais e culturais. Portugal era um país bloqueado por uma ditadura retrógrada e cruel que durou 48 anos. A Revolução, pacífica, sem efusão de sangue, teve uma grande influência na democratização de muitos países ibero-americanos e especialmente no Brasil.

Acabada a ditadura brasileira, Miguel Arraes regressou ao Brasil e tratou de restabelecer o velho Partido Socialista Brasileiro de João Mangabeira. Foi durante os seus mandatos de governador que o visitei várias vezes, quando exercia eu próprio funções oficiais em Portugal. Pudemos falar largamente e tornamo-nos amigos, para além de correligionários. Tive ocasião de visitar a sua obra e apreciá-la vivamente.

- Mário Soares foi primeiro-ministro no primeiro governo constitucionalde Portugal, em 1976, após a Revolução dos Cravos. Em 1983, foi nomeado novamente primeiro-ministro do país. Foi também presidente de Portugal por duas vezes (em 1986 e em 1991), sendo o primeiro civil eleito diretamente pelo povo. Ao encerrar o mandato presidencial em 1996, passou a comandar a Fundação Mário Soares, criada em 1991.

As colônias portuguesas na África


Angola

Das três colônias portuguesas, era a mais extensa, rica (diamante, petróleo e café) e populosa. Lá, viviam 35 mil portugueses e cinco milhões de negros – depois da África do Sul, era a maior colônia de brancos no continente. A resistência em Angola não tinha um grupo hegemônico, mas três movimentos se sobressaíam: FNLA, Unita e MPLA. Cada um exercia influência numa área do país e recebia ajuda de agentes externos, norte-americanos e chineses, portugueses e russos, respectivamente. O MPLA, dirigido por Agostinho Neto, era o favorito em Luanda, a capital do país. Quando o governo português caiu, em 1974, a guerra se intensificou. O MPLA e a FNLA começaram a lutar pelo controle da capital. O MPLA expulsou o FNLA de cidade e manteve o controle do local com ajuda do exército cubano. Assim, por dominar a capital, foi reconhecido como vitorioso na guerra pela libertação. Agostinho Neto foi o primeiro presidente do país.

Moçambique

A luta pela libertação começou com movimentos sediados fora do país e com bases social e étnica distintas, que foram unidas pelo sociólogo Eduardo Mondlane. Dessa união, surgiu a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), da qual Mondlane foi o primeiro presidente. Em meados de 1962, já havia a ideia de que não seria possível conquistar a independência sem uma guerra, então, os primeiros guerrilheiros foram treinar na Argélia – entre eles, estava Samora Machel que substituiu Mondlane após seu assassinato em 1969. A luta armada teve início em setembro de 1964, com algo em torno de 200 militantes. Quando a guerra terminou, em 1975, havia um exército de 15 a 20 mil homens, além de muitos militantes treinados que não podiam fazer certas operações por falta de armas.

Guiné-Bissau e Cabo Verde

Os dois países, embora constituíssem estados separados, tinham a previsão de serem unificados. Portugal só reconheceu a independência deles em 1974, após a Revolução dos Cravos. Mas o poder já estava nas mãos de uma guerrilha nascida nos anos 60. Antes mesmo da queda do ditador português Antonio Salazar, o governo do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) era reconhecida por 54 nações. O PAIGC era liderado por Amílcar Cabral, que morreu em 1973, num atentado atribuído ao serviço secreto português, mas que foi orquestrado por grupos divergentes do próprio partido. Foi sucedido pelo irmão Luís Cabral, destituído após um golpe em 1980. Só então Cabo Verde aceitou renunciar à unificação e, hoje, é um país independente.

São Tomé e Príncipe

A dominação portuguesa teve início ainda em 1470, quando Lisboa tentava descobrir novas rotas marítimas e conquistar novos territórios. Assim como nas outras colônias, o movimento de libertação surgiu na década de 60. Em 1972, um grupo nacionalista criou o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP) e conquistou a independência em 1975.

Revolução a distância

Da Argélia, Arraes trabalhava pela unificação da esquerda no Brasil contra a ditadura militar. Foi vencido pela falta de consenso entre a oposição no país

Exilada ou clandestina no Brasil, a esquerda brasileira não conseguiu chegar a um consenso sobre como combater a ditadura militar. Estava fragmentada em várias correntes ideológicas e diferentes posicionamentos de ação, com as principais lideranças exiladas em diferentes países. Nos primeiros anos após o golpe de 1964, houve uma tentativa de criar um projeto único contrário ao regime. Fracassou. As iniciativas, armadas ou não, passaram a acontecer a partir de pequenos grupos, sem unidade, e, consequentemente, sem eficiência.

Da Argélia, onde estava desde 1965, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes iniciou uma intensa atividade política. Entendia que a reação só poderia acontecer com o apoio da população brasileira. Foi quando se envolveu na criação do Movimento Popular de Libertação (MPL). “Em 1967, foi acertada a realização de um trabalho destinado a congregar aqueles que, dentro e fora do Brasil, combatem a ditadura de diferentes formas. Não se tinha clareza quanto à forma que esse trabalho tomaria.Saímos de uma situação em que, unidos em torno de princípios gerais, não constituíamos um partido, um movimento, uma frente, em que pudéssemos nos reencontrar e trabalhar debaixo de uma autoridade política reconhecida por todos”, explicou a ideia do movimento em carta a um “amigo”. O MPL, por divergências políticas e financeiras entre os dirigentes, não foi adiante. E Arraes levou anos comunicando que já não fazia parte do grupo, até que finalmente seu nome deixou de ser associado ao MPL (leia abaixo).

Ao mesmo tempo em que percebia a necessidade de sensibilizar a população brasileira, Arraes procurou estender o debate contra a ditadura a outros países. Buscava ter a opinião pública mundial contrária ao governo militar, que propagandeava os avanços econômicos do Brasil à época. Também era necessário ter espaço para discutir a política militar e denunciar as torturas cometidas contra os opositores. No final dos anos 60, os grupos armados estavam em plena atividade no Brasil e alguns setores sociais realizaram protestos contra o governo. A ditadura endureceu a repressão. Uma semana após o assassinato, em 1969, de Carlos Marighella, da Aliança Nacional Libertadora (ANL), surgiu a Frente Brasileira de Informação (FBI), a partir de uma articulação de Arraes, de Violeta Arraes (irmã do ex-governador que vivia exilada na França), de Márcio Moreira Alves e de outros exilados.

Foi a primeira iniciativa unitária da esquerda brasileira desde o golpe de 1964, como constata o jornalista Elio Gaspari na série de quatro livros sobre a ditadura militar publicada pela Companhia das Letras. O boletim mensal, distribuído entre jornalistas, pesquisadores e órgãos de direitos humanos de vários países, teve apoio dos católicos e do Partido Comunista e isso fez com que fosse bem recebido por todos os grupos revolucionários em atuação no Brasil. A divulgação de análises sobre o país, inclusive nos congressos e seminários para os quais era convidado, tomou bastante tempo de Arraes, principalmente a partir de 70. Ele publicou três livros (O povo e o Poder, A Questão Nacional e o Jogo do Poder no Brasil) e vários artigos de repercussão internacional. Tratou, por exemplo, sobre a propaganda da ditadura, a questão nuclear, a luta contra o fascismo e o crescimento econômico.

No final dos anos 70, com a possibilidade de anistia, Arraes voltou a trabalhar pela união da esquerda. Acreditava que era preciso criar uma frente ampla até a redemocratização do país. Nesse sentido, intensificou os contatos com integrantes do MDB, que faziam uma luta constitucional contra o regime militar, e com as demais lideranças brasileiras. Promoveu encontros em Paris (França) e em Lisboa (Portugal). De Pernambuco, por exemplo, encontrou-se com o senador Jarbas Vasconcelos, o ex-deputado Fernando Coelho (deputados federais na época pelo MDB) e com Marcos Freire (senador na época). Os militares já sinalizavam para o pluripartidarismo, uma maneira de vencer a oposição pela divisão. O ex-governador integrava o grupo que acreditava na unidade para vencer o regime, opinião derrotada mais uma vez pela falta de consenso da esquerda.

Fundação do MPL acabou em briga


O Movimento Popular de Libertação (MPL) resistiu poucos meses e não conseguiu alavancar seu objetivo principal, congregar aqueles que lutavam contra a ditadura fora e dentro do Brasil. “Ele surgiu na mesma época da luta armada, não havia como reunir pessoas que aceitassem ser comandadas por um grupo cujas lideranças estavam fora do país”, avalia o ex-deputado Maurílio Ferreira Lima (exilado na Argélia), que, ao lado de Márcio Moreira Alves e Edgar da Mata Machado, formava a base parlamentar do grupo. Ainda participavam os irmãos Sylvio e Marcos Lins, os pivôs das divergências que levaram o MPL ao final. Sylvio foi líder estudantil em Pernambuco.

Segundo Maurílio, Marcos, responsável pelo trabalho no Brasil, informava o crescimento do movimento, com a existência de vários núcleos nos estados e com a realização de atividades frequentes. “Mas era tudo ficção”, afirma. Almeri Bandeira de Melo, ex-assessor de dom Helder Câmara, completa: “O MPL não representou alguma coisa consistente entre as forças que lutavamcontra a ditadura e isso deixou Arraes muito triste, porque ele fez um esforço imenso para que desse certo”.

Os dirigentes começaram a se desentender principalmente em relação às finanças. A crise começou em 1969, dois anos após a criação. “O MPL é um assunto delicado. Desde o início, havia divergências, não apenas em relação à condução política, mas financeiras. Foram questões graves. Houve uma ruptura total entre Arraes e a família Lins”, comenta Yara Gouvêa, ex-integrante da Vanguarda Revolucionária Popular (VPR).

Há registros de diversas cartas de Arraes a Sylvio Lins com cobranças de prestação de contas. Em um relatório sobre os recursos angariados, chega-se a afirmar que “Sylvio utilizou recursos políticos em função de suas conveniências pessoais”. “Não acredito que tenha havido desonestidade, só houve um superdimensionamento dos fatos por Marcos Lins. Era um sonho”, afirma Maurílio.

Em outubro de 1970, foi elaborado um protocolo para a dissolução do MPL. A relação ficou tão desgastada que Arraes enviou uma série de cartas para lideranças brasileiras, com explicações sobre as razões das divergências. E fez circular, em 1971, por todas as organizações em atuação no Brasil um documento em que afirmava não ter nenhuma responsabilidade pelas atividades do MPL.

Batalha perdida para o individualismo


A esquerda já fez sua mea culpa e identificou a falta de unidade como um dos principais erros na luta contra a ditadura militar. A frente ampla tentada após o golpe, em 1964, e na anistia, em 1979, mostrou como era difícil agregar diferentes lideranças, como Brizola, Jango e Arraes, em torno da mesma plataforma. Não que eles divergissem no objetivo geral, mas a disputa por espaço político e a influência de atores externos (Partido Comunista da União Soviética, Cuba, socialistas europeus, etc.) impediram a convergência, embora não tenham faltado tentativas.

Há um volume imenso de correspondências no arquivo de Arraes sobre o tema, como a carta enviada para o sociólogo Francisco Oliveira (exilado no Chile) em novembro de 1966. “Creio que perdi bastante tempo na busca de uma unificação inviável, no momento, pela impossibilidade de demonstrar aos que se consideram organizados e a alguns amigos que estamos diante de uma situação inteiramente diferente. Mudaram as condições e temos que agir em função delas e não imaginando que ainda existam aquelas mesmas condições anteriores ao golpe”. No mesmo ano de 1966, Paulo Mello Bastos, integrante do secretariado do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), escreveu ao ex-governador informando que “Jango era a favor da frente ampla, mas não quer assumir com o CL (Carlos Lacerda). Brizola disse que não atrapalha. Conheço seus esforços para unir as forças populares antes de sentarmos na mesa com JK (Juscelino Kubitschek), JQ (Jânio Quadros) ou mesmo CL, mas infelizmente muitos continuam individualistas”.

Doze anos depois, em um novo contexto, a unidade ainda era motivo de preocupação. Ao comentar sobre os partidos políticos, em novembro de 1978, Arraes diz que “as pessoas pensam em termo de categorias, não do processo político que lá (Brasil) se desenrola. Ora, o processo é evidentemente mais importante do que as siglas e por ele deveríamos nos orientar”. O tema também foi central em vários encontros clandestinos e reuniões. “Houve um encontro em Lisboa com Arraes, Brizola, AlminoAfonso e Márcio Moreira Alves para se conseguir uma certa união na questão da volta ao Brasil e eles não chegaram a um acordo”, recorda a ex-militante Yara Gouvêa.

“Precisávamos ter um consenso mínimo, nos unir para derrotar os militares. Depois, com o quadro unido, cada um poderia dar atenção às suas particularidades”, avalia o ex-ministro da Defesa Waldir Pires, que foi consultor-geral da República no governo Jango e exilou-se no Uruguai e na França. Na avaliação de Pires, a falta de unidade foi um dos principais fatores para a vitória de Fernando Collor na primeira eleição direta para presidente após o fim do governo militar, em 1989.”Nós passamos 20 anos lutando pela democracia e partimos para a disputa com cinco candidaturas do mesmo campo. Foi uma coisa melancólica”, lamenta.

1971

Janeiro

- General Humberto Mello assume o 2º Exército em São Paulo.

Fevereiro

- Ulysses Guimarães assume a presidência do MDB.

Maio

- O Senado norte-americano realiza audiências sobre o Brasil

Junho

- Cabo Anselmo está na polícia.

Agosto

- Golpe na Bolívia.

Setembro

- Carlos Lamarca é assassinado.

Dezembro

- Médici vai aos EUA e encontra-se com o presidente Nixon

1972

Janeiro

- O Exército descobre uma base de treinamento no Araguaia.

- O deputado Flávio Marcílio defende a reeleição de Médici.

Fevereiro

- Terroristas matam o marinheiro inglês David Cuthberg.

- Richard Nixon vai à China.

Abril

- Campanha militar no Araguaia. Termina em julho e recomeça, por um mês, em setembro.

- Chegam ao Brasil os ossos de D. Pedro I. Começam as festas do Sesquicentenário da Independência.

Maio

- Inaugurada, em Brasília, a Escola Nacional de Informações, braço pedagógico do SNI e do CIE.

- Golpe na Nicarágua

Agosto

- Censura proíbe qualquer notícia sobre a sucessão presidencial.

- A Anistia Internacional divulga um relatório listando os nomes de 472 torturadores e 1.081 torturados no Brasil.

- O Brasil bate a marca dos 100 milhões de habitantes.

Setembro

- Preso o chefe Tupanamaro Raúl Sendic no Peru.

- Terroristas sequestram parte da delegação de Israel nas Olimpíadas de Munique.

Novembro

- Richard Nixon é reeleito presidente dos EUA

1973

Fevereiro

- O Senado dos EUA começa a investigar o caso Watergate.

Março

- Terroristas matam o delegado Octávio Gonçalves Moreira Jr. no Rio de Janeiro.

- Termina mais um ciclo militar na Argentina. O peronista Héctor Cámpora é eleito presidente e renuncia para permitir a ascensão de Juan Perón.

Abril

- Brasil e Paraguai assinam tratado para construção de Itaipu.

Maio

- O CIE começa a operação Sucuri, infiltrando oficiais e soldados no Araguaia.

Junho

- Médici conversa com Ernesto Geisel e diz que ele será seu sucessor.

Julho

- Filinto Müller morre e Petrônio Portella torna-se presidente da Arena.

- A embaixada brasileira asila um político chileno envolvido numa tentativa de golpe contra Salvador Allende.

Setembro

- Ulysses Guimarães lança-se como “anticandidato” à presidência do Brasil.

- Golpe militar no Chile. Allende se mata e Pinochet assume.

- A Embaixada do Brasil nega auxílio aos exilados em Santiago. Policiais brasileiros interrogam presos.

- Juan Perón é eleito presidente da Argentina.

Outubro

- Começa nova ofensiva no Araguaia.

- O Egito e a Síria invadem Israel. São derrotados e o mundo árabe declara boicote de petróleo aos países pró-Israel.

Novembro

- Médici altera o Código Processual Penal para impedir que o delegado Sérgio Fleury vá para a cadeia.

Dezembro

- Dissolvida a guerrilha do Araguaia.

1974

Janeiro

- O Congresso elege Ernesto Geisel para presidente do Brasil.

- Inaugurada a ponte Rio-Niterói.

Março

- Ernesto Geisel sinaliza preferência por Figueredo como seu sucessor.

- Geisel não admite que Delfim Neto dispute o governo de São Paulo e Paulo Egydio Martins é escolhido governador do estado.

- Desaparecem David Capristano da Costa eJosé Roman, do PCB.

- Caducam as cassações de 1964, como a de Jango e Jânio Quadros.

Abril

- A Censura proíbe que se fale em recessão.

- Golpe militar em Portugal.

- Richard Nixon entrega à Justiça as gravações que fazia em seu gabinete.

Maio

- Sylvio Frota assume o Ministério do Exército com a morte do general Dale Coutinho.

- A Índia explode a primeira bomba atômica.

- Valéry Giscard é eleito presidente da França.

Junho

- D. Eugênio Sales, cardeal do Rio de Janeiro, trata com Geisel sobre os desaparecidos.

- O CIE justifica a ofensiva contra o PCB.

- O MDB divulga uma nota levantando o caso dos desaparecidos.

Julho

- Começa a epidemia de meningite em São Paulo.

- Perón morre e sua mulher, Isabelita, assume o poder na Argentina.

- Cai a ditadura grega e os civis retomam o poder.

Agosto

- Geisel discursa e anuncia “lenta, gradual e segura distensão”.

- A União Soviética manda armas para o MPLA, em Angola.

- Richard Nixon renuncia à presidência dos EUA. Assume Gerald Ford.

Setembro

- Prisões no Cebrap. Pela primeira vez o DOI é enquadrado.

Outubro

- Eleições indiretas dos governadores.

- O Supremo condena Chico Pinto, um dos fundadores do chamado grupo autêntico do MDB.

- O Exército mata último integrante da guerrilha do Araguaia, Walquíria Afonso da Costa.

Novembro

- Eleições no Brasil: o MDB conquista uma expressiva vitória ao eleger 16 em 22 senadores.

- O governador da Geórgia, Jimmy Carter, anuncia ser candidato à presidência dos EUA.

Em Paris, encontro com Lula sobre criação do PT

Aberto a várias correntes da esquerda, Arraes dialogava com todas as lideranças da oposição

O ex-governador Miguel Arraes, ao longo de sua carreira política, sempre manteve uma posição de independência. Durante o exílio, não foi diferente. Não foi vinculado a nenhuma organização de esquerda no Brasil, relacionava-se com todas elas, mesmo deixando claras as diferenças de ideias. Internacionalmente, foi próximo dos movimentos de libertação africanos e de partidos progressistas da Europa. Muitas vezes, esse posicionamento deixou o ex-governador isolado, alvo de críticas, mas não impediu que ele dialogasse com todas as lideranças brasileiras, de Leonel Brizola a Luiz Carlos Prestes.

Apesar de ter sido acusado de comunista, Arraes discordava do Partido Comunista da antiga União Soviética, sua preferência foram os comunistas italianos, mais independentes. Porém, não teve dificuldade de relacionamento com Luiz Carlos Prestes ou com Gregório Bezerra, membros do Partido Comunista do Brasil, vinculados à antiga União Soviética. Não defendeu a luta armada, mas esteve em Cuba para conversar com Fidel Castro, que apoiava grupos brasileiros armados. E manteve uma franca troca de correspondência com Carlos Marighella, do PCB, um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura no Brasil. Eles tentaram se encontrar pessoalmente, mas não houve tempo – Marighella foi assassinado em 1969.

O diálogo aberto com todos foi ampliado no final da década de 70, quando outras lideranças se consagraram no cenário nacional. O MDB, partido de oposição ao regime militar, se consolidou no país e emplacou derrotas eleitorais à Arena, legenda governista. Vários integrantes da oposição estiveram com Arraes para discutir estratégias políticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, foi a Paris conversar com Arraes sobre a criação de um novo partido que reunisse os trabalhadores, que começavam a fortalecer os sindicatos após a repressão. Arraes ouviu ex-sindicalista, mas discordou da proposta, defendendo que a oposição deveria permanecer unida até a redemocratização.

O bom relacionamento de Arraes com as diversas correntes contrárias ao regime permitiu que ele fomentasse e se integrasse à rede de solidariedade aos exilados brasileiros e aos demais latino-americanos, vítimas da onda de golpes que assolaram a América do Sul. Juntamente com a irmã Violeta Arraes e com Márcio Moreira Alves, Arraes prestou ajuda aos que lhe procuraram. Quando houve o golpe militar que depôs Salvador Allende, no Chile, eles atenderam vários militantes que deixaram o país em busca de segurança.

1975

Janeiro

- Geisel reúne o Alto-Comando das Forças Armadas e diz que a ordem política do país tem que mudar

- Prisão do dirigente comunista e ex-deputado Marco Antônio Coelho

- Estourada a gráfica clandestina do PCB que imprimia a Voz Operária

Iniciada a construção de Itaipu

Fevereiro

- Greve de fome dos presos políticos em São Paulo

- Margaret Thatcher é eleita líder da oposição pelo Partido Conservador inglês

Março

- Empossados os 22 governadores escolhidos por Geisel

- O ex-presidente português Antônio Spínola tenta um golpe, fracassa e se asila no Brasil

Abril

- Termina a guerra do Vietnã

Maio

- Começa a guerra civil em Angola

Junho

- Brasil e Alemanha assinam acordo nuclear

Julho

- Geisel cassa o senador Wilson Campos, que pedira dinheiro a um empresário para ajudá-lo a conseguir um empréstimo no Banco do Estado de Pernambuco

Agosto

- Geisel redefine o significado da distensão. É a fala da “Pá de Cal”

Outubro

- Onda de prisões de militantes do PCB em São Paulo

- Assassinado o jornalista Vladimir Herzog

Novembro

- Proclamada a independência de Angola

- Morre o general Francisco Franco na Espanha

- Criada a Operação Condor pela polícia chilena

1976

Março

- Greve de estudantes na Bahia e em Minas Gerais.

- Isabelita Perón é deposta da presidência da Argentina.

Abril

- Cassação do deputado Lysâneas Maciel.

- Greve de estudantes no Rio.

- Promulgada a Constituição de Portugal. Os socialistas ganham a eleição parlamentar.

Junho

- João Goulart (Jango) recebe passaporte do Brasil após 12 anos de sua deposição.

- Seca no Nordeste. Saques na Paraíba e no Ceará.

- O general Antônio Ramalho Eanes é eleito presidente de Portugal.

Julho

- A SBPC aprova uma moção a favor da anistia.

- O socialista Mário Soares torna-se o primeiro ministro de Portugal.

Agosto

- Bombas na ABI e na OAB.

- JK morre em um acidente de carro.

Setembro

- A Operação Condor mata em Washington o ex-ministro de Allende, Letelier.

Novembro

- Eleição municipal. MDB vence nas grandes cidades brasileiras.

- Jimmy Carter é eleito presidente dos EUA.

Dezembro

- Morre João Goulart (Jango).

- Massacre da Lapa – assassinato de três dirigentes do PCdoB em São Paulo.

- Cuba tem 36 mil homens em Angola.

1977

Janeiro

- Início da guerra civil em Moçambique.

- Jimmy Carter assume presidência dos EUA.

Março

- Estudantes vão para as ruas de São Paulo, é a primeira passeata desde 1968.

Abril

- Geisel fecha o Congresso e lança o Pacote de Abril.

Maio

- Morre Carlos Lacerda.

- 80 mil estudantes entram em greve no país

Junho

- Policiais ocupam a Universidade de Brasília.

- Geisel cassa o líder do MDB, deputado Alencar Furtado.

Julho

- O general Figueiredo é lançado à sucessão de Geisel.

- Tropas cubanas desembarcam na Etiópia.

Dezembro

- Depois de sete anos de silêncio D. Helder Câmara discursa na Faculdade de Direito do Recife.

Frente brasileira de denúncia

Por meio do Front, boletim mensal produzido na Argélia e distribuído para vários países, exilados alertavam o mundo para os desmandos da ditadura

Denunciar, dar visibilidade às ações do governo militar brasileiro foi a estratégia encontrada por um grupo de exilados para tentar atingir e enfraquecer a ditadura. Com a esquerda dividida e a repressão militar aguda, os campos de ação estavam reduzidos. As ações de oposição ao regime militar eram realizadas individualmente. Em 1969, depois da decepção com o Movimento Popular de Libertação (MPL), o ex-governador Miguel Arraes tentava aglutinar as forças do Brasil, principalmente as que estavam exiladas, numa frente de denúncia regular e sistemática dos desmandos do regime e de suas ligações com interesses econômicos estrangeiros. Criou, então, a Frente Brasileira de Informação (FBI), mais conhecida como Front (do nome em francês, Front Brésilienne de Information).

O Front era um boletim mensal que circulava em vários países, como França, Alemanha, Holanda, Inglaterra e Itália. “Tinha apoio de todas as cores da esquerda, desde o Partido Comunista até a Vanguarda Popular Revolucionária, além de políticos independentes, intelectuais, artistas, muitos exilados já em 1964″, conta o aposentado João Bosco Feres, um dos responsáveis pela elaboração do Front, na seção holandesa. Teve participação ativa do ex-deputado Márcio Moreira Alves, que era o principal elo entre os brasileiros da Europa e o núcleo da Argélia. Arraes, além da articulação e do apoio político, acompanhava a elaboração do boletim na Argélia, onde funcionava o escritório central, e escreveu análises para publicação.

“Não era uma tarefa das mais simples. Tudo era feito meio na clandestinidade, somente as pessoas já ‘irremediavelmente’ queimadas (banidos e personalidades superconhecidas) é que se apresentavam abertamente. Havia um grupo grande de artistas e intelectuais e religiosos, com uma situação ainda legal no Brasil. Estes eram, naturalmente, muito protegidos, pois representavam um elo importante com o Brasil”, explica Feres. Ele ressalta que o governo militar chegou a mandar agentes para a Europa para traçar a composição do grupo que “denegria a imagem do país no exterior”.

De acordo com Feres, o conteúdo era produzido na Argélia, a partir de discussões realizadas entre grupos de exilados e a partir de informações das redações dos veículos de comunicação do Brasil, que passavam as notícias censuradas. Os grupos de cada país organizavam a distribuição. O público-alvo era formado por jornalistas, acadêmicos, sindicalistas, partidos políticos e até por quem pagava assinatura. Alguns números chegaram a ser enviados ao Brasil.

Os boletins encontraram um terreno fértil para circular. Os estrangeiros, especialmente os europeus, eram muito críticos, e a luta pelo desenvolvimento social e político do Terceiro Mundo estava em moda. O material produzido conquistou bastante credibilidade e repercussão. Além de denunciar a repressão e a tortura, o Front fez, por exemplo, campanha contra a Transamazônica e contra o projeto de colonização da Amazônia. “A partir dessas publicações, institutos europeus de pesquisas iniciaram ciclos importantes de ‘estudos brasileiros’ em diversas universidades”, diz Feres.

Depois de três anos de existência, o Front foi envolvido por crises. “Algumas seções da Europa começaram a querer fazer atividades mais autônomas. Arraes achava que era preciso manter uma certa unidade. Também havia o problema da ciumeira entre os grupos”, diz Yara Gouvêa. Muitos diziam que o periódico “falava” apenas pela VPR. Isso aconteceu, de acordo com Yara, porque ela era ex-militante da VPR e uma das responsáveis pela elaboração do boletim. O fim dos problemas na produção do Front coincidiu com uma nova etapa da ditadura brasileira. O governo Geisel (1974-1979), desde “eleito”, sinalizava para uma abertura do país. A estratégia de denúncia da ditadura pedia uma mudança. O assunto foi tratado em carta de Arraes para a irmã Violeta em fevereiro de 1974.

“Como fazer um trabalho no exterior se não ficam claras as questões do interior? É verdade que sempre é possível fazer um boletim, conseguir alguns protestos etc., coisas certamente úteis, mas que não abalam o prestígio do regime. Como provar na Europa (se ficamos aí), quando a ditadura perde as eleições, libera os jornais conservadores, procura modificar a política externa? Seu principal interesse agora é com o mundo árabe e a África, onde o fascismo não é tema que comova. Deveríamos trabalhar (onde não há brasileiros, salvo nós aqui) e para tanto, é preciso saber o que dizer, como dizer e em nome de quem dizer aos governos, partidos e pessoas amigas que estivessem de acordo em criar uma penetração na ditadura.” O novo trabalho não chegou a ser idealizado. O Front continuou sendo publicado até a aproximação da anistia.

1978

Janeiro

- Geisel é recebido no México com protestos contra a ditadura no Brasil.

- Assassinado a mando do ditador Somoza o oposicionista nicaraguense Joaquín Chamorro.

Março

- Assembléia popular de 7 mil cria em São Paulo o Movimento do Custo de Vida, chamado depois de Movimento contra a Caristia.

- Protestos estudantis em várias cidades pelo 10º ano da morte de Edson Luís, o primeiro estudante assassinado na ditadura.

- Movimento Feminino de Anistia entrega denúncia de torturas ao presidente dos EUA, Jimmy Carter, que estava em visita ao Brasil.

Abril

- A 16ª assembléia da CNBB defende o estado de direito e a anistia.

Maio

- Ato pela anistia reúne 3 mil na faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo.

- Lançamento da candidatura de oposição do general Euler Bentes à presidência do Brasil.

- Onda de greves em São Paulo.

- O MDB apóia a candidatura presidencial de Euler Bentes.

- Intervenção militar da França no Zaire de Mobuto.

Junho

- Acaba a censura prévia à imprensa.

- O general EulerBentes reúne 3 mil em São Paulo.

Agosto

- Geisel proíbe greves em setores básicos.

- Morre Papa Paulo VI e o cardeal Albino Luciani se torna Papa João Paulo I.

- Alfredo Nobre da Costa substitui Mário Soares no cargo de primeiro-ministro de Portugal.

Setembro

- 1ª greve geral dos bancários de São Paulo pós-1964.

- Escolha dos governadores e dos senadores “biônicos”.

- Portaria 3.337 reitera, em vão, a proibição das articulações intersindicais.

- Morre o Papa João Paulo I.

Outubro

- O Colégio Eleitoral se reúne e elege o general Figueiredo como presidente do Brasil.

- Passa no Congresso, por decurso de prazo, a nova lei antigreve.

- A Justiça Federal de SP responsabiliza a União pela morte do jornalista Wladimir Herzog numa cela do DOI-Codi.

- O cardeal Karol Wojtyla é eleito como Papa João Paulo II.

Novembro

- Congresso pela Anistia, em São Paulo.

- Criação do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA). Em poucos meses formam-se CBAs na maioria dos estados, em cidades, bairros, escolas, categorias profissionais. A luta pela anistia ganha ritmo de campanha.

- Criada a Lei de Segurança Nacional, mas sem pena de morte.

- Carlos Mota Pinto substitui Alfredo Nobre como primeiro-ministro de Portugal.

Dezembro

- O Diario de Pernambuco publica lista de 78 torturadores de PE, feita por presos políticos.

- Fim do Ato Institucional nº 5, após 10 anos de arbítrio, dentro da “distensão lenta, gradual e segura”

do general Geisel. Extintas também as penas de morte, prisão perpétua e banimento.

Sociedade política e literária com Celso Furtado

Em parceria com o economista, Arraes criou livraria em Paris para divulgar realidade latino-americana

Com a ideia de reunir e unir os latino-americanos e munir a opinião pública de documentos sobre a realidade dos países da América Latina, Arraes se envolveu na criação de uma livraria em Paris, na França, em sociedade com o economista Celso Furtado, exiliado no país. Também fazia parte do negócio o jornalista mineiro José Maria Rabelo, responsável pela gerência. A livraria pertenceu inicialmente a um grupo da resistência portuguesa, integrado pelo ex-primeiro ministro lusitano Mário Soares, que lutava contra o governo de Antonio Salazar. Foi adquirida por Arraes e Furtado quando Soares retornou a Portugal, com a queda do regime salazarista.

A Librerie Center des Pays de Langue Espangnole et Portugaise (Livraria dos Países de Lígua Espanhola e Portuguesa) estava localizada numa das áreas mais famosas da cidade-luz, na rue des Écoles, no Quartier Latin. “Foi um ponto de encontro dos brasileiros, tinha uma sala de encontros, um auditório. Ainda hoje a livraria existe e é chamada de L’Harmattan, especializada noTerceiro Mundo”, afirma Rosa Furtado, viúva do economista.

Segundo Arraes, a livraria “deveria se transformar em ponto de referência dos que se encontram fora de seus países, necessitados de documentação capaz de sustentar estudos e atividades que desejassem desenvolver. A livraria poderia representar um local de encontro, de debate, de estudos, a serviço da causa que defendemos, da oposição aos regimes militares do nosso continente”.

As lembranças da livraria ainda estão vivas na memória de José Maria, 80 anos, mas ele não quis falar sobre o assunto. Disse que prepara um livro, sem previsão de lançamento, em que contará essa passagem de sua vida. “Não é muito importante na minha história (a livraria). O convívio com Arraes não acrescentou em nada na minha vida. É uma questão pessoal e não poderia, então, tratar das questões políticas”, afirma José Maria. Na realidade, José Maria guarda um ressentimento em relação a Arraes em decorrência dos anos em que dirigiu o negócio.

Três anos depois da aquisição da livraria, a sociedade começou a ruir. Arraes enviou cartas a José Maria fazendo cobranças sobre as atividades da livraria. Chegou a dizer, em março de 1978, que o “objetivo de base não foi atingido e nem sequer perseguido como principal”. “A livraria é um fato positivo apenas porque constitui mais um ponto de venda de livros, isto é, não ultrapassou os limites de simples ponto comercial”, escreveu. Ao que José Maria respondeu, em abril do mesmo ano, com um detalhado relatório de atividades e de contas. “Já realizamos cerca de 30 conferências e debates, participamos de incontáveis exposições, promovemos espetáculos populares com artistas da América Latina”, disse. Na lista de realizações, estavam o lançamento de livros dos argentinos Julio Cortázar e Julio Silva, a exposição do artista plástico venezuelano Angel Vivas e a conferência do economista brasileiro Luis Carlos Bresser Pereira.

1979

Janeiro

- Congresso metalúrgico em São Paulo aprova criação de um partido do trabalhador.

- Estados Unidos e a República Popular da China estabelecem relações diplomáticas.

- Rebeldes do Camboja apoiados pelo Vietnã derrubam o regime Pol Pot.

- O Pahlevi foge do Irã. Triunfa a revolução islâmica e o aiatolá Khomeini volta a Teherã após 16 anos de exílio. Março

- Greve geral dos 160 mil metalúrgicos do ABC, em São Paulo.

- O general Figueiredo assume a presidência.

- Intervenção nos sindicatos metalúrgicos do ABC, em São Paulo, mas a greve continua.

- Assembleia de metalúrgicos de S. Bernardo vota o fim da greve, a pedido de Lula.

Abril

- 17ª assembleia da CNBB aprova Apelo dos Bispos pró-Anistia .

- Fim da fidelidade partidária imposta por lei, vigente desde 1978.

- A Revolução Iraniana proclama a República Islâmica.

Maio

- Morre o torturador Sérgio Fleury em acidente de carro. Fala-se em “queima de arquivo”.

- Congresso rejeita emenda das eleições diretas para governador, do senador Franco Montoro.

- Fim do Decreto 477 e outros atos de repressão a estudantes.

- 31º Congresso da UNE, em Salvador. É o 1º desde 1968.

- Margaret Thatcher é eleita primeira-ministra da Grã-Bretanha.

Junho

- Encontro de Lisboa, liderado por Brizola e com a presença de Mário Soares (do PS português), lança a Carta de Lisboa. Propõe “um novo trabalhismo” e finca as bases do futuro PDT

- Os ministros Petrônio Portella e Golbery levam a Figueiredo o projeto da anistia limitada, enviado ao Congresso

- O presidente Iraquiano Hasan al-Bakr renuncia e o vice-presidente Saddam Hussein o substitui

Julho

- Os exilados que retornam já não precisam depor na Polícia Federal

- Greve de fome de presos políticos contra a Anistia limitada. Dura 23 dias e passa do Rio a São Paulo, Recife e Fortaleza (84 participantes)

- A OAB condena o caráter restrito do projeto de anistia do general Figueiredo

Agosto

- 20 mil vão às ruas no Rio de Janeiro pela anistia ampla, geral e irrestrita

- O preso político Theodomiro dos Santos, não incluído na Anistia, foge da prisão em Salvador e se asila na Nunciatura Apostólica

- Congresso vota a Lei de Anistia. A esquerda do MDB rejeita seu caráter recíproco, parcial e restrito.

- Figueiredo sanciona a Anistia, parcial, limitada e recíproca. Parte dos presos políticos é libertada, os exilados retornam, os clandestinos voltam à superfície

- Começa mobilização da 1ª greve nos canaviais de PE em 11 anos

- Maria de Lourdes Pintasilgo substitui Carlos de Mota Pinto no cargo de primeiro-ministro de Portugal

Setembro

- Brizola retorna de 15 anos no exílio, recebido por 3 mil em São Borja (RS) – dia 6.

- Arraes retorna ao Recife após 14 anos de exílio – dia 15.

- Retorno de Gregório Bezerra, Hércules Correia e outros exilados do PC Brasileiro – dia 29.

- Morre Agostinho Neto, fundador do MPLA, líder da luta de libertação e 1º presidente de Angola.

- Golpe no Afeganistão.

Outubro

- Figueiredo envia ao Congresso projeto da reforma partidária.

- Golpe impõe junta militar em El Salvador.

Novembro

- Congresso aprova a reforma partidária. Fundação do PMDB.

- O general Figueiredo responde com banana a protesto estudantil em Florianópolis (SC). Segue-se batalha de 6 horas com a PM, a chamada Novembrada.

Dezembro

- Lançado o programa do PTB-Brizola (futuro PDT).

- A URSS invade o Afeganistão.

- Mikhail Gorbachev é eleito para o Politburo da União Soviética.

Fontes: Livros A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Encuralada e A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari, editados pela Companhia das Letras, e site Escola do Saber

“Uma das cenas mais fortes que vi”


A imagem do governo enfraquecida e o crescimento da oposição levaram os militares a tentar conceder um ar de democracia à ditadura brasileira. Depois de Geisel assumir o poder e falar em abertura, houve tentativas de negociar a volta de algumas lideranças ao Brasil. O governo, então, sondou Jango. Este, por sua vez, procurou outras lideranças brasileiras exiladas para discutir o assunto e avaliar politicamente a proposta.

Jango e Arraes se encontraram em Genebra, na Suíça, em um pequeno hotel localizado às margens do lago Leman, no centro da cidade. O ex-presidente alugou o hotel na totalidade, sem a presença de outros hóspedes. Além dos dois líderes, estavam presentes o ex-deputado Maurílio Ferreira Lima e João Vicente, filho de Jango. “Foi uma das cenas mais fortes que vi na vida. Muito tempo de discussão e Jango a insistir na possibilidade de volta, enquanto Arraes ponderava sobre o prejuízo político pela redemocratização que a decisão poderia causar. Foi então que João se levantou e disse: “Pai, se tu voltares para o Brasil, vou cuspir na sua cara”, relata Maurílio.

Essa não foi a primeira tentativa de Jango de voltar ao Brasil. Em 1972, Arraes trocou cartas com Luiz Carlos Prestes, exilado em Moscou (na antiga União Soviética), onde tratavam sobre uma negociação do ex-presidente para voltar. “Ao que tudo indica, (Jango) negocia sua volta ao Brasil, mesmo que isoladamente, em troca de apoio a um general qualquer para a substituição de Médici (presidente do Brasil entre 1969 e 1974). O esquema é semelhante ao da Argentina (aliança dos militares com uma figura popular), a que não seriam estranhos os americanos. A diferença é que na Argentina, (Juan Domingo) Perón (ex-presidente argentino) conta com correntes sindicais e populares mais organizadas e atuantes, embora heterogêneas. No Brasil, Jango parece manobrar isoladamente e sem as mesmas condições. À tal manobra Brizola se opõe”, relatou o ex-governador a Prestes.

A volta de Jango ao Brasil não aconteceu. Ele morreu, oficialmente vítima de um ataque cardíaco, em dezembro de 1976, no município de Corrientes, na Argentina. Existem, no entanto, suspeitas de que ele tenha sido assassinado por agentes da Operação Condor, uma aliança político-militar do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai.

Enfim, a anistia é aprovada pelo Congresso


A pressão interna e externa em oposição à ditadura e a queda de popularidade do governo determinaram uma mudança no regime militar. O mandato de Ernesto Geisel coincidiu com uma onda de democratização internacional, com a queda de ditaduras em vários países, como Portugal – embora na América Latina o golpe de Pinochet, no Chile, ainda fosse recente. A expectativa nacional era que os ventos de liberdade também soprassem no Brasil. Não tardou, portanto, para que os militares falassem em distensão lenta e gradual.

O sucessor de Geisel, o general João Bastista Figueiredo, foi eleito para promover a transição do poder militar para o civil. “A única maneira de conciliar o país era com a anistia”, destaca o ex-deputado federal Fernando Coelho, testemunha parlamentar daquele período. Enquanto os militares debatiam internamente sobre o projeto de liberalização, crescia o movimento social pela anistia. A discussão empolgou os brasileiros. Passeatas e comitês pró-anistia se multiplicaram pelos estados, com um papel fundamental desempenhado pelas mulheres na campanha.

O governo, sentindo os efeitos da pressão, decidiu, então, encaminhar o projeto de anistia ao Congresso Nacional. Segundo Fernando Coelho, líder do MDB na época, havia projeções de que a oposição seria majoritária nas eleições seguintes e setores do governo achavam que a anistia somaria um aspecto positivo para os militares. O projeto preparado pelos militares, no entanto, estabelecia uma série de restrições. Apresentava uma anistia bastante diferente daquela defendida pela sociedade, a “ampla, geral e irrestrita”. A versão dos militares era seletiva, só beneficiaria os considerados “inofensivos” ao regime.

A expectativa dos militares era de que, além de atender a um anseio popular, a volta dos líderes dividiria a oposição e inverteria a tendência de crescimento do campo oposicionista ao regime. “Figueiredo pretendia capitalizar dividendos e enviou a mensagem às vésperas do recesso parlamentar de julho. Aquilo foi um estímulo aos deputados e gerou um enormedebate. O projeto de Figueiredo era muito estreito. Estudantes, operários sindicalizados, por exemplo, não eram contemplados. Mas nós conseguimos alargá-lo”, lembra Fernando Coelho. A anistia foi aprovada pelo Congresso em 22 de agosto de 1979, sancionada por Figueiredo seis dias depois, beneficiando 4,6 mil pessoas.

Os exilados começaram a voltar, mas já chegaram ao Brasil divididos. Houve uma tentativa de um retorno conjunto para demonstrar a força oposicionista. Mas os líderes exilados não conseguiram fechar um consenso e voltaram individualmente. Alguns já chegaram ao Brasil com o objetivo de criar novos partidos – é o caso de Leonel Brizola. Em seguida à anistia, os militares liberaram o pluripartidarismo. Fizeram isso acreditando que enfraqueceriam a oposição. De uma certa forma, lançaram uma estratégia correta.

Com as mãos e o sentimento do mundo

Foi com as palavras de Drummond que Arraes descreveu o retorno ao Recife, há 30 anos, em comício que reuniu mais de 50 mil pessoas

O discurso da volta: sem ingenuidade

“Não tenho ilusões, nem desejo fomentar ilusões a vocês que tão carinhosamente vieram me receber. A situação de hoje em nosso país é muito mais complicada do que há quinze anos. Qualquer proposta que atenue a gravidade dessa situação e a sua natureza complexa será um engodo. As oposições brasileiras têm o dever de dizer ao povo que mesmo a redemocratização do país não resolverá automaticamente todos os problemas.”

“Voltei para me integrar na luta de toda a oposição brasileira. Os movimentos populares estão dizendo que não querem mais chefes tutelares, os movimentos populares estão dizendo que sabem conduzir-se. Estão dizendo isso há muito tempo. Mas sem falsa modéstia posso dizer também que saber corresponder à direção que os movimentos populares imprimem à luta democrática foi característica dos governos que tive a honra de chefiar.”

“Não devemos dar a impressão de que os problemas nacionais e os problemas populares são de fácil resolução. Não devemos dar a impressão de que se trata apenas de corrigir iniquidades ou distorções geradas pelo tipo de crescimento ocorrido em nosso país. Não podemos nem devemos propagar um programa de boas intenções para dirigir a crise e ajudar o regime a administrá-la.”

“O centro do trabalho de todas as oposições, as que estão dentro e as que estão fora do quadro partidário, deve ser a organização do povo. É essa organização do povo, em suas várias formas que o próprio povo já criou, em seus vários segmentos profissionais, ocupacionais, territoriais, em sua mesclagem e mistura com os outros setores sociais, quem pode dar as respostas para o direcionamento da política das oposições.”

“Este momento é encruzilhada e confluência. Marca uma época e inicia outra. É saudade e deixar de ter saudade. É sentir-se mais velho e menos velho: a idade avançou, o tempo que passou, idade e tempo que me pouparam para assistir, ver com meus próprios olhos, ouvir com meus próprios ouvidos, sentir na pele esse reencontro. Estou mais moço porque reencontramos a História. E aqui, encruzilhada e confluência, deixo o exílio e me reincorporo como democracia, como homem do povo, ao seu destino. As armas que trago são poucas. São as mesmas. Talvez ampliadas pelo conhecimento da luta dos oprimidos de outras terras. São aquelas evocadas pelo poeta: tenho duas mãos e o sentimento do mundo.”

O reencontro do ex-governador Miguel Arraes com Pernambuco aconteceu no dia 16 de setembro de 1979. Há exatos 30 anos. Um reencontro afetivo com a terra e com o povo. Mais de 50 mil pessoas de todas as partes do estado se reuniram no Largo de Santo Amaro, no Recife, para recepcioná-lo depois de 14 anos exilado na Argélia. Sob uma forte chuva, a multidão observou Arraes discursar emocionado, em cima de um caminhão, ao lado de algumas das principais lideranças da esquerda brasileira. Ouviu o ex-governador render homenagens a todos que lutaram pela liberdade e pela democracia e também analisar a realidade brasileira. Arraes despediu-se da plateia ao dizer: “As armas que trago são poucas. São as mesmas. Talvez ampliadas pelo conhecimento da luta dos oprimidos de outras terras. São aquelas evocadas pelo poeta. Tenho as mãos e o sentimento do mundo”. Levou ao delírio os que tinham aguardado tanto tempo por aquele momento.

A expectativa em torno da volta de Arraes, desde a assinatura da Lei de Anistia, em 28 de agosto, foi grande. Dias antes da data marcada, os muros do Recife receberam cartazes que anunciavam “Ele está voltando”. No interior, agricultores, especialmente da Zona da Mata, se organizavam em caravanas para recepcioná-lo. Até um frevo, o “Arrastaí”, foi adaptado para a data especial. Os pernambucanos produziram, com a organização do MDB, partido de oposição ao regime militar, talvez a maior manifestação popular para homenagear os exilados que retornavam ao país.

Quando voltou ao Brasil, Arraes já tinha conhecimento de que não seria candidato nas eleições (ainda não confirmadas) de 1982. Integrantes do MDB pernambucano visitaram o ex-governador em Paris, na França, e informaram que o partido tinha outro nome para a disputa, o do senador Marcos Freire. Essa versão é contestada pelo senador Jarbas Vasconcelos (deputado federal à época). “A eleição seria indireta e só se tornou direta com a Lei Falcão, depois que ele chegou”. Naquele ano, Arraes se candidatou a deputado federal e foi, proporcionalmente, o maisvotado do país. O retorno ao governo do estado só aconteceu nas eleições de 1986.

Arraes chegou ao Recife exatamente às 10h55. Veio do Crato, interior do Ceará, onde estava desde o dia anterior para rever a família, e desembarcou na pista de pouso do Aeroclube de Pernambuco, no Pina, acompanhado da esposa, Madalena, da mãe, Maria Benigna, e do filho mais velho, José Almino. O restante da família deixou o Ceará na noite anterior para assistir ao comício. Mais de mil pessoas, entre amigos, jornalistas, políticos, o esperavam no local. Aos gritos de “Arraes, Arraes”, ele desceu do pequeno avião e foi carregado nos braços até o carro que o levou à casa da filha mais velha, Ana Lúcia (hoje, deputada federal), na Torre, onde concedeu entrevista à imprensa. Almoçou e seguiu para Santo Amaro. A festa estava marcada para 16h.

Da Argélia ao Recife, o ex-governador fez escalas em Paris, na França, e no Rio de Janeiro. A viagem inteira foi acompanhada por familiares, amigos e jornalistas de veículos de comunicação de todo o mundo. Embora houvesse um clima de euforia e ansiedade pelo retorno, Arraes estava apreensivo. Preocupava-se com o real significado das últimas decisões do governo militar. Ele chegou a afirmar que não voltava com ingenuidade. “Temos que pensar em portas de saída, caso seja um processo de fachada”. Uma das primeiras notícias ouvida por Arraes sobre a anistia foi contada pelo cunhado, irmão de Madalena, no verão europeu de 1978. Ele relatou que o movimento estava crescendo no país, com a adesão de diversos setores. “Vocês não se espantem se sair”, avisou. Um ano depois, a família Arraes arrumou as malas e voltou à terra natal. Entre a assinatura da lei até a data do embarque, foram 15 dias. Os filhos de Arraes estavam de férias na Europa e foi preciso reuni-los e organizar a mudança.

Na véspera da viagem, a família tomou um susto. Os filhos estavam deitados, Madalena terminando de arrumar as malas e, em outro ambiente da casa, Arraes fazia sala para um amigo que tinha ido se despedir. Uma visita demorada, que custava a ir embora. Madalena voltou à sala para participar da conversa e pegou o jornal. Olhou a data. E quase caiu pra trás. “A gente errou tudo! Já perdemos o nosso voo. E agora?!”. Desespero geral. Quem estava dormindo acordou. Todos sem saber o que fazer. Poucos minutos depois, o mal-entendido foi desfeito. O jornal é que tinha sido publicado com a data errada. No dia seguinte, a família viajou como planejado.

O discurso do comício de Santo Amaro foi preparado ainda na Argélia, dias antes da viagem. Arraes dedicou muito tempo de seus dias para elaborá-lo e ainda estava concentrado nele na sala de espera do aeroporto de Argel (capital argelina). Em Santo Amaro, já no Recife, o discurso foi ouvido pelo então sindicalista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-líder estudantil e hoje governador de São Paulo, José Serra, o senador Pedro Simon e o ex-deputado federal Ulysses Guimarães (falecido em 1992), entre outras lideranças nacionais.

 *Fonte: Diario de Pernambuco – Caderno especial – “Miguel Arraes – o arquivo do exílio”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>